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Обычный португальский
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Комментарии

Rain 20 апреля 2016
В 282, 348, 365 и в 407 текстах не хватает пробела между предложениями.
Rain 20 апреля 2016
493-й текст не хватает пробела между предложениями.
Rain 19 апреля 2016
371-й текст не хватает пробела между предложениями.
GoodLoki 14 февраля 2016
430-й текст не хватает пробела между предложениями.
Виталька 14 февраля 2016
422-й текст не хватает пробела между предложениями
eka42003 8 июля 2011
Ну, в принципе, как раз про малолетних правонарушителей, не отличающихся строгостью нравов ни в каком смысле... Обе книги хорошие!
Uncle_Sam 8 июля 2011
В словарь добавлено около 250 отрывков из книги бразильского писателя Жоржи Амаду "Капитаны песка".
Книгу эту я читал сам несколько лет назад и за нее ручаюсь. :)
Uncle_Sam 30 июня 2011
Для людей, хорошо освоивших английскую раскладку, привычнее будет печатать на раскладке "Португальская (Бразилия)":
http://www.microsoft.com/resources/msdn/go...oards/kbdbr.htm
Написать тут
Описание:
Аналог "обычного" на португальском языке.
Автор:
Uncle_Sam
Создан:
25 июня 2011 в 22:20 (текущая версия от 9 мая 2017 в 11:08)
Публичный:
Нет
Тип словаря:
Тексты
Цельные тексты, разделяемые пустой строкой (единственный текст на словарь также допускается).
Информация:
09.05.17 тексты словаря перезалиты. Спасибо Phemmer за исправления в текстах
Содержание:
1 Toda semana, acabava aparecendo um daqueles clientes que você paga para não atender. Aquele que tem um papo muito chato; o outro que nem com banho e reza braba cheira bem; o rude, que transa como se fosse com uma boneca inflável, sem se preocupar se está machucando a garota ou não.
2 Quando o programa terminou, não me senti culpada por nada, apenas aliviada. A raiva que eu tinha dele, sem motivo, parecia uma coisa de carma, sei lá. Ele voltou a me ligar na semana seguinte, porém não reconheci nem o número do celular dele nem a voz.
3 Quando abri a porta, acho que até revirei os olhos, mostrando minha impaciência. O que parecia improvável aconteceu: a segunda transa foi ainda pior do que a primeira. Cheguei a bocejar durante o papis e mamis, depois de ficar totalmente alheia enquanto ele me chupava.
4 Anotei o número dele na memória do meu celular e passei a deixar de atender às suas ligações. Passou um tempo até que, certo dia, quem é que aparece de novo na minha porta? O mr. Estranho... Ele ligou de outro número e eu não reconheci a voz dele.
5 A transa não foi das melhores; nem tinha como. Mas foi tranqüila e seria anônima, assim como centenas que tive, não fosse por essa pequena troca que foi além de nossa relação comercial. Acho que ambos aprendemos algo naquela tarde.
6 Porém, nem tudo o que diz respeito à tolerância, no meu caso, tem a ver com coisas estranhas. De qualquer modo, depois disso aprendi a respeitar as manias dos outros. Eu tenho tantas — e detesto que me julguem por elas... Por isso, vale o lema: cada um com suas manias.
7 Um cliente que me chamou a atenção, com quem me controlei para ficar quieta e não dizer nada, é um caso meio estranho — engraçado, não esquisito. Foi uma das poucas vezes em que fiquei sem reação, sem saber o que fazer na hora de transar.
8 Partiu para cima de mim num papis e mamis e ficou fazendo o movimento, alucinado. Só que tem um detalhe: o p... dele não estava dentro da minha bu..., estava só roçando na minha virilha. Eu fiquei pensando o tempo todo se ele não tinha percebido ou se essa era uma tara dele.
9 Fugindo um pouco da sacanagem... Ter de me submeter a algumas coisas me fez entender melhor todas as pessoas que critiquei a vida toda. Sei que tenho minha opinião, minhas convicções, mas não posso esperar que todo mundo veja o mundo sob minha ótica.
10 Meus cabelos, na verdade, não dão muito trabalho, pois são naturalmente lisos. Eu tinha de estar pronta por volta da hora do almoço, vestida, maquiada, cheirosa e bonita. Mas nada de exageros. A roupa, ao contrário do que muitos imaginam, precisa ser provocante sem ser vulgar.
11 Claro que havia clientes que chegavam a me trazer lingeries de todos os tipos, para satisfazer as fantasias deles. Alguns clientes já pediam para eu me vestir de um jeito tal ou tal para quando ele chegasse. Eram poucos, mas havia.
12 Chega a hora da sessão da tarde. Digo isso pois quem bate à minha porta, nesse horário, normalmente é um garotão, bem novinho. Eu não curto muito, para ser sincera. E uma questão de preferência, só isso. Mas não dá para deixar de atender aquele garoto: pele macia e rosada, quase sem barba.
13 O grande barato, já que não faz meu tipo de homem, é fazer um favor às futuras mulheres que vão cruzar o caminho dele: ensino a chupar direito, guio a transa, baixo a ansiedade dele e o ajudo a descobrir que mulher não é foto de revista nem boneca inflável: mulher de verdade é diferente.
14 Foi só depois de nós duas termos experimentado tudo uma com a outra, mas sem falos ou consolos, apenas com nossos dedos e línguas, que ele entrou na brincadeira. Nós duas fizemos dele um verdadeiro sultão, servido por duas gatas já muito satisfeitas.
15 Durante toda a minha vida, criada na tradicional fé cristã, acreditei em Deus, nos princípios do cristianismo — mesmo que não fosse praticante. Mas nada disso impediu que, assim como minha família, eu me aproximasse do espiritismo.
16 E é essa fé que me faz acreditar — e batalhar — na reaproximação com meus pais. Não quero deixar passar a chance de tentar, se não consertar, ao menos reiniciar nossa história, aproximando nossas vidas e finalmente resgatando esse carma que nos colocou juntos.
17 Cheguei perto e fiquei apenas observando a cena. Meu cliente havia me seguido, apesar de eu nem ter notado sua presença. Ela me perguntou se eu não gostaria de participar da brincadeira. Sem nem piscar, disse que toparia qualquer coisa, desde que fosse apenas com ela.
18 Algo mágico aconteceu quando eu dei o primeiro beijo nela. Sabe aquela coisa de o beijo combinar? Pois é... O nosso combinou como poucas vezes na minha vida. Um beijo com cheiro bom, textura da língua gostosa, movimento sedutor, saliva na medida certa, lábios aconchegantes.
19 Nos vários orgasmos que tive, devo ter arrancado muitos fios de cabelo dela, já que segurava com força dois tufos, um em cada mão, como quem quer parir para dentro, tudo para fazer com que ela não desgrudasse de mim nem por um segundo.
20 Sentir suas mãos delicadas segurando com força minhas coxas enquanto se deliciava com minha bu... era um complemento perfeito. Nem me importei em tentar retribuir tudo aquilo. Fiz mesmo o papel da menininha impotente diante de um ser dominador.
21 Gozei muito naquela noite. Depois que nos despedimos com um beijo delicado e um abraço quase apaixonado, a presença de meu cliente me fez voltar à realidade. Nós acabamos nem transando, mas naquela noite ganhei duplamente: o dinheiro do programa e uma transa inesquecível.
22 Na vida que levei, aprendi que, quando a gente quer algo, tem de ir atrás, e que, na busca pelo prazer, não existe distinção de raça, cor, credo ou sexo. O máximo que vai acontecer, depois de uma abordagem, é você ouvir um não.
23 Ali, com aquela mulher e naquele ambiente, nenhuma das duas disse nem ouviu um não — cujo risco era mínimo. Claro que paquerar alguém do mesmo sexo pode embutir um perigo extra: o de levar uns bons tabefes. O que é mais comum entre homens, ao menos pelo que ouvi falar e pude ver.
24 Se os homens se permitissem deixar a atração rolar desse jeito, não digo que todos curtissem ter uma relação homossexual, mas que teriam de se controlar muito mais... ah, isso teriam, sim. Afinal, tesão não escolhe razão. É tudo química, não é.
25 Claro que, no começo da profissão, tinha um certo pudor de tirar a roupa na frente de estranhos, de ver estranhos sem roupa etc. Mas isso durou pouco. Não há nada mais natural do que o corpo humano. Nem por isso a primeira vez deixa de ser algo estranho.
26 O resumo da ópera é que fiz, sim. E isso me fez muito mal. Também me senti humilhada. Primeiro, porque tive de fazer um esforço muito grande para vencer minhas próprias barreiras. Depois, porque essa é uma das coisas que gostaria, se fosse possível, de apagar da minha memória.
27 Senti que eu tinha dentro de mim a semente do empreendedorismo. Resolvi alugar um flat e, mais uma vez, saí de casa — dessa vez deixando para trás, em vez de meus pais, uma cafetina. Hoje vejo que não planejei muito, pois o que eu queria era sair do prive.
28 Conversei com alguns amigos e também com clientes que pudessem me dar algum toque. Eu não sabia sequer o que fazer com o dinheiro. Por vários meses eu o guardei em um saquinho, pois nem sabia como abrir uma conta no banco. Durante muito tempo passei pelo medo de estar com o dinheiro.
29 Foi aí que inventei a história de fazer uma lista de tudo o que eu queria para mim, somar o preço dos itens e pegar o total que eu queria conseguir me prostituindo. Deu uma grana preta. Mesmo assim, resolvi dividir o montante em quinhentas cotas.
30 Cada vez que atingia uma dessas cotas, depositava em um banco e riscava no meu caderno o número correspondente à cota alcançada. Isso facilitou atingir o objetivo: não pensar na meta final, mas ter diversas metas menores ao longo do caminho.
31 Próximo desafio: eu tinha de me fazer conhecer para além dos clientes que me acompanharam do prive. Se a propaganda é a alma do negócio, no meu caso ela era o corpo também. Acabei anunciando em alguns sites. Dão bom resultado, mas é tudo meio loteria.
32 Explico: uma das vantagens que você tem ao trabalhar para alguém é que tudo é responsabilidade do chefe, no meu caso, do cafetão. E como um emprego normal. Se falta toalha, você cobra do cafetão. Se acabou o sabonete para os clientes, reclame.
33 Algum tempo depois que me transferi para o flat, numa das minhas noites de depressão, comecei a procurar na internet algum blog que falasse sobre garotas de programa. No começo, queria apenas ver se todas passavam pelas mesmas coisas que eu.
34 Em pouco mais de dois meses, o meu blog era um dos maiores sucessos da internet. Isso fez muito bem para os negócios... Os clientes vinham até mim, sem eu ter de correr atrás deles. Sei que isso não serve para qualquer ramo de atividade.
35 No momento em que o blog virou uma febre, levei um susto. De repente, pessoas roubavam minha senha, colocavam coisas piratas no blog, tentavam se passar por mim. Que loucura! Chegou até a circular uma história de que eu não existia.
36 Pode? Isso mesmo: começaram a dizer que, na verdade, aquelas histórias todas do blog eram invenção, que a Bruna nunca existiu, ou que talvez eu fosse um garoto, inventando tudo aquilo só de sarro — e, mesmo que fosse uma garota, não passava de balela, que nunca havia me prostituído.
37 Para alguém que só queria ser ouvida, a coisa saiu melhor do que a encomenda. Mas acendeu também uma pequena luz no final do túnel: o medo de parar com os programas deixava de ter sentido. Eu ainda não sabia direito como, mas tinha certeza de que o dia estava próximo.
38 Escrever no blog todos os dias virou um prazer maior do que todos os outros. A droga já estava no passado. Os sentimentos confusos com relação a meus pais e minha história, também. Eu voltei a me sentir uma pessoa de verdade — e ainda por cima querida, de certo modo.
39 E estranho saber que as pessoas querem saber tudo sobre você. Basta ver a curiosidade em torno do filme que vão fazer com base no livro O doce veneno do escorpião. Minha maior preocupação, hoje, é viver isso sem deixar que tome conta de mim, me deslumbre, interfira na minha vida com o João Paulo.
40 Porém, pior do que abrir um rombo nas minhas contas, eu perigosamente criei uma falsa contabilidade para a minha vida. Como nem comidinhas nem os presentinhos que me dava regularmente tinham mais o efeito de aliviar a barra, a droga virou o ponto de equilíbrio no balanço diário da minha vida.
41 A passagem da maconha do Bandeirantes para a cocaína nos outros colégios foi um pulo que nem eu sei precisar muito bem. A primeira vez foi uma pilha só. Eu estava extasiada pelo efeito, pelo brilho, pelo jeito de a cocaína deixar você ligado.
42 Cada carreira que eu cheirava e cada beck que eu queimava me tiravam da realidade momentaneamente, me faziam esquecer um pouco tudo o que acabara de viver. O que eu realmente gostava nas drogas, naquele ponto da minha vida, não era a loucura, mas o torpor.
43 Lá no prive tudo era organizado, por mais que a cafetina não soubesse — ou fingisse não saber: o mesmo traficante, conhecido de todas nós, fazia entregas regulares, sem perigo. Eu nem precisava sair: as drogas chegavam até mim.
44 Eu perdia o controle sobre mim, sem a menor condição de reagir, só de me deixar levar. Quando eu voltava, estava um caco, não gostava nem de me olhar no espelho, pois aquilo não era eu nem o que eu queria ser ou parecer. No entanto, tudo aquilo foi, durante muito tempo, mais forte do que eu.
45 Nessa ocasião eu aprendi, do jeito mais doloroso, que o caminho de volta é ainda pior que o de ida para as drogas. Afinal, não havia nada que me tirasse, nem mesmo momentaneamente, daquele inferno da abstinência que se somasse às minhas neuras preexistentes.
46 Quando as drogas se tornaram página virada na minha vida, eu sabia também que teria de colocar um ponto final na prostituição. Por mais que olhar para a frente e não enxergar uma saída fácil, e, mesmo assim, caminhar em direção a esse cenário desconhecido possa parecer suicídio.
47 O que mais vicia na prostituição, ao menos com garota de programa com agenda cheia, é o dinheiro que entra todos os dias. Basta querer trabalhar. Tudo bem que, em alguns casos, das poucas amigas que fiz durante minha carreira de GP, mudar de vida virou um pesadelo ainda maior.
48 Tudo bem que, depois de algumas vezes, confesso que perdeu um pouco a graça. Mas foi uma fantasia realizada. É muito curioso você ver o p... duro aparecer e sumir entre os seus peitos, como se você estivesse vendo uma transa de dentro da vagina.
49 Outra fantasia que realizei no exercício da profissão foi a suruba. Nunca teria coragem de juntar um bando de amigos e fazer uma — nem em sonho. Então, que seja com um bando de clientes e, na pior das hipóteses, também com outras primas.
50 Na hora, é bem verdade que passei do estado de saco cheio a um pouco insegura. Será que eu estava fazendo algo errado? Seria como uma mulher ir ao salão de beleza e sair mais feia e desarrumada do que havia entrado. Senti um misto de pena e de frustração.
51 Eu sinto o preconceito na pele, desde a infância. Por ter sido uma criança obesa, cresci escutando piadinhas e apelidos maldosos das pessoas ao meu redor. Quando somos crianças, a nossa ingenuidade não nos permite compreender o motivo pelo qual as pessoas não nos aceitam do jeito que somos.
52 Quando coloquei na cabeça que precisava emagrecer para ser aceita, perdi pouco mais de vinte quilos. Passei a ser um padrão de beleza, como as pessoas costumam dizer, mas eu não era feliz. A minha felicidade era comer horrores e sentir prazer com a comida.
53 No fórum GP Guia, onde eu sempre estive em evidência, os homens competem com quem é mais macho. Ao mesmo tempo que considero algo hilário, acaba sendo patético. Palavras escritas por eles acabam se tornando uma grande contradição.
54 Talvez estes homens não aceitem um parente que venda o corpo, porque sabem o quanto que esta opção de vida seja difícil. Muitos tratam as prostitutas como objetos e não gostariam de imaginar a filhinha tendo o mesmo tipo de tratamento.
55 Eu e o João Paulo também sofremos preconceito por causa da nossa relação. Mas posso dizer que tem sido muito bom, pois é o que fortalece o nosso amor. Muitos amigos, que se diziam amigos dele, nos criticaram. Mas esse obstáculo que enfrentamos juntos é uma prova de amor.
56 O que me incomoda de verdade é a hipocrisia das pessoas. Isso me tira do sério. O que mais vejo são seres humanos que se fazem de santos. Tudo bem que são santos do pau oco, porque duvido que alguém tenha um passado limpo, sem nenhum erro cometido.
57 E isso envolve tudo, desde mulheres que se prostituem por debaixo dos panos, que estão na mídia, mas se fazem de sonsas quando o assunto é prostituição. Eu não faço auê, finjo que não sei de nada, mas fico pasma com tanta hipocrisia.
58 Também não acho justo dar nome aos bois ou às vacas, como queiram. Brincadeirinha. A vida é delas, se querem ser santas para a sociedade, que sejam felizes desta maneira, desde que não fiquem jogando pedrinhas em mim, pois são as que menos me atingem.
59 Quantas pessoas criticam, enchem a boca para falar mal das prostitutas, mas não sabem que muitas vezes têm uma pessoa querida que é, mas esconde. No mundo da prostituição trabalhei com muitas meninas que eram casadas ou que tinham algum parceiro que desconheciam sobre a profissão delas.
60 A maioria das meninas, na realidade, esconde dos familiares e dos próprios amigos. Há algumas mulheres que atualmente são casadas, vivem de modo completamente diferente. Então, antes de criticarem, tenham a certeza de que não há nenhuma pessoa que você considera querida que não seja.
61 Quanto a esta situação que vivo, só posso dizer que estou com a consciência totalmente tranqüila. Não roubei marido de ninguém. A impressão que dá é a de que, certo dia, eu toquei a campainha do apartamento do casal, amordacei a fulana, puxei o marido à força para morar comigo.
62 Eu nunca quis expor ninguém. Não citei o nome de pessoa alguma no meu primeiro livro. Mas sempre chega alguém para pegar carona no seu bonde já em movimento — e para sentar na janelinha. Tudo bem que qualquer história tem dois lados.
63 Houve uma passagem totalmente desonesta da produção de um programa de TV. Eu sempre tive muito cuidado para não deixar que pessoas que não fossem de minha total confiança soubessem que o Pedro se chama João Paulo, o nome real da Gabi, minha melhor amiga, e o dos meus pais.
64 Por causa desse pequeno detalhe, toda vez que eu precisava enviar meus documentos para algum programa, para autorizar o uso de imagem, por exemplo, eu tomava o cuidado de enviar uma fotocópia, com o nome deles coberto. No caso de fax, tomava a mesma precaução.
65 Mas houve um dia em que cheguei em uma emissora e me disseram que, por alguma razão, precisariam do original. Na hora, meio sem saber o que fazer ou dizer, entreguei. Nunca imaginei que eles pudessem usar aquela informação de forma tão baixa.
66 Pois não é que, alguns dias depois, ao falar com meu primo, soube que cada milímetro de avanço que havia feito na direção de me reaproximar de meus pais havia sido tragado pela produção daquele programa que, com o nome de meus pais, fizera uma busca na lista telefônica e havia tentado fazer contato.
67 A coisa ficou ainda pior quando duas viaturas, uma da Rede TV! e outra da Bandeirantes passaram a ficar estacionadas na porta do prédio dos meus pais, esperando um furo de reportagem, flagrar alguém da minha família ou até mesmo conversar com eles.
68 Ainda bem que, com o tempo, desistiram. Porém, o estrago estava feito. Os mínimos avanços que eu pudesse ter feito foram todos por água abaixo. Claro, e com toda razão, meus pais achavam que eu é que os estava expondo. Eu pensaria a mesma coisa.
69 A entrevista foi tensa, pois admito que não fico à vontade na TV — e o Jô não ajudou nem um pouco. O pior ainda estava por acontecer: o Jô pergunta sobre o Pedro. Respondi que estávamos juntos. Não é que o Jô resolve perguntar se ele estava na platéia.
70 João Paulo foi apanhado de surpresa, assim como eu. Nem deu tempo de dizer se ele estava ou não na platéia e eu já vi o rosto dele no monitor. Do jeito como o Jô conduziu a conversa forçada com ele, ele acabou mentindo a respeito de sua profissão: disse que era empresário.
71 O tal apresentador não entrou em contato diretamente comigo. Alguém da produção ligou e ficou me azucrinando até a data marcada. Todos os dias, essa pessoa ligava e dizia que eu precisaria ser muito discreta e que não poderia comentar nossa transa com ninguém.
72 Até entendo a preocupação do sujeito, mas será que precisava ligar para dizer a mesma coisa todos os dias? Bem, o programa com o apresentador foi extremamente estranho, supermecânico. Eu detestei. Não aconteceu nada de mais picante ou diferente.
73 Atendi a vários famosos, mas não gosto de ficar falando sobre isso. Já conversei com outras garotas de programa sobre essa história de atender a celebridades. O que não faltam são histórias, mas não dá para saber se todas são verdadeiras ou não.
74 Muitas meninas adoram encher a boca para falar que transaram com algum famoso. Há alguns deles que se destacam na putaria. Como já ouvi muitas histórias parecidas, contadas por primas diferentes, acredito que sejam verdadeiras.
75 Mas esse deslumbramento não faz a minha cabeça. Sempre tratei todos os meus clientes, famosos ou não, da mesma maneira. Já tive até problemas por causa disso. Um jogador de futebol ficou chateado porque eu não o reconheci quando ele chegou ao meu apartamento.
76 Preciso dizer que eu tinha a ilusão de que homem famoso não precisava procurar garota de programa. Por serem celebridades, imaginava, eles teriam as mulheres que quisessem rastejando atrás deles. Mas não é bem assim... Quando saí com o primeiro famoso, notei que ele tinha um complexo.
77 Agora, o mais curioso é descobrir que tem muito bonitão na TV que paga de macho, mas que sai com garota de programa apenas para saciar o seu lado feminino. Se é que posso dizer assim... Eles pagam para serem penetrados. Isso é que é confiar na lealdade de uma prostituta, não.
78 Fiquem calmos: jamais revelaria a identidade de meus clientes. Soube de gente que ficou muito preocupada quando soube que eu estava escrevendo um livro. Durante um tempo, eu morei no mesmo flat de um famoso que paga de machão na televisão.
79 Longe da telinha, no entanto, a principal diversão dele era pegar travestis quando estava em São Paulo. Certa vez, rolou o maior bafafá no apartamento dele. O travesti desceu para a recepção e começou a dar escândalo. Ele foi motivo de comentários dos moradores do flat durante um bom tempo.
80 Sim, Bruna Surfistinha me ensinou que os poderosos pagam advogados para impedir que a sua intimidade seja exposta. Mas os cidadãos comuns, como eu e você, são atirados aos leões. Tudo em nome da audiência. Vale conferir outro assunto que, obviamente, a Rede TV.
81 Todas as vezes em que fui atacada, recebi inúmeras mensagens de apoio de leitores. Acredito que a apresentadora tenha sofrido tanto quanto eu pelas notícias que foram publicadas a seu respeito. A Bruna Surfistinha me ensinou a nunca julgar ninguém, portanto, tire você mesmo as suas conclusões.
82 Bem, existe outra possibilidade: a tal garota de programa, que também apareceu para tentar tirar uma casquinha do meu sucesso, pode não ser uma garota de programa de verdade. Pelo menos, eu me diverti muito nas poucas vezes em que ela deu entrevistas.
83 Duvido que esta garota seja GP Assim como não era GP a garota que fez o Superpop na primeira aparição pública da Bruna Surfistinha de cara limpa na TV. Quem se lembra, era uma loirinha que mostrava o rosto e falava o tempo todo.
84 No dia marcado, fui até o local indicado e vi que a coisa era meio bagaceira. Não tinha nada daquilo que eu imaginava que seria uma filmagem. Era tudo meio improvisado e as pessoas não me pareciam muito entusiasmadas com nada daquilo.
85 Enquanto fica todo mundo ali, à sua volta, olhando para você, o diretor fala para começar a transa assim, chupar assado, tomar cuidado para o cabelo não encobrir o rosto, coisas muito mecânicas. Haja tesão para transar e prestar atenção em tudo isso.
86 E lá íamos nós. Levanta mais a perna, agora geme, revira os olhos, pára, muda de posição, faz cara de tesão, acerta a luz, não olha para a câmera, pára de novo, volta na posição anterior, geme mais alto, acelera, diminui, chupa, enfia.
87 Eu vi algumas das cenas que gravei e não curti nada. Estava mesmo pouco à vontade, não achei excitante ver aquilo. Nem sei se as pessoas que viram acharam excitante. Eu tinha uma idéia meio romântica de um set de filmagem, com um clima bacana para que a transa fosse o mais natural possível.
88 Fico meio puta de ver que, apesar de eu ter assinado o contrato apenas como Bruna, eles terem apanhado minhas cenas, picotado em um monte de filminhos, como se eu tivesse participado de um monte deles, colocando o nome Bruna Surfistinha na capa e vendido como se eu fosse uma grande porn star.
89 Fiz questão de despir meu deus grego pessoalmente, abrir sua camisa, passar a mão pelo peito definido dele, abrir o cinto da calça, baixar o zíper. Uau! O tamanho do pacote indicava que o presente era dos grandes. O cara era perfeito.
90 Por coincidência, naquela mesma tarde, atendi um casal meio esquisito que, se tivesse visto numa casa de swing, não chegaria nem perto. Ele era meio feioso, meio gorducho, meio calvo, com um cabelo meio ensebado, sei lá. Definitivamente, não era meu tipo de homem.
91 A mulher era estilo botijão, baixinha, gordinha e com jeito de quem não mandava bem na cama. Eu sugeri um banho antes da transa. Enquanto o marido foi tomar o dele, ela ainda veio com uns papos nada a ver, que me deixaram um pouco irritada.
92 Assim que a mulher voltou, o negócio pareceu incêndio em mato seco: não sei de onde aqueles dois tiraram tanto fogo. Ela me chupou com tanto talento que eu nem lembrava mais que não havia curtido o visual dos dois. A gordinha era muito sexy e entendia muito bem o que estava fazendo.
93 O maridão não ficava atrás: seu p... era perfeito no tamanho e na grossura, bonito mesmo. E ele também chupava divinamente. Não precisei encenar nem fazer nenhum esforço interno para gozar três vezes com eles. E olha que o cara nem me comeu.
94 Sabe que eu terminei esse programa orgulhosa de mim mesma? Foi uma das melhores transas que já tive com casal: animada, tesuda, natural. Nem parecia que estávamos fazendo um programa. Pois é, mais uma vez, as aparências me enganaram.
95 Os formatos também são um capítulo à parte. Vamos dizer que se trata de um desmembramento das teorias da Bruna Surfistinha após vasta pesquisa de campo. Afinal, tive todos eles nas minhas mãos, na minha boca, na minha bu..., na minha bundinha e onde mais a sua imaginação possa encaixar a peça.
96 Aqueles que têm o prepúcio são os que mais enganam. Como a pele envolve a cabeça, pode fazer com que elas pareçam maiores do que realmente são. Isso quando a deixam sair totalmente, quando o p... está duro. Tem muitos homens que não conseguem puxar a pele toda para baixo, expondo a cabeça.
97 Bem, já que estou falando disso, vou continuar. Até porque vou prestar um serviço a todas as mulheres que não têm a chance de, com eu, dar uma de São Tome. As cabeças são bastante diversificadas. As mais interessantes são aquelas que parecem um morango: são harmoniosas, com um design bem equilibrado.
98 Tem alguns p... que são pequenos e finos. Isso não quer dizer que prejudiquem a performance. Mas, como disse, o fator visual e tátil os deixa em desvantagem — o que exige do dono um esforço extra para apagar essa primeira impressão.
99 Para finalizar, e já que estou falando tudo mesmo, vou falar, sem preconceito, daquelas crenças étnicas. Lição aprendida: nem todo negro é um monumento, nem todo japonês é compacto, nem todo machão trepa bem e nem todo tímido trepa pedindo desculpas.
100 Nem sempre as bonitas são as melhores. Digo isso por experiência própria. Já me surpreendi com o furacão solto por muitas das menos favorecidas, enquanto algumas lindas ficam parecendo aquelas maçãs enormes, vermelhas, brilhantes que, na primeira mordida, deixam um gosto insosso na boca.
101 Com relação ao físico, existem alguns detalhes que também chamam a atenção pela diversidade. Sim, estou falando das bu... As mais interessantes de olhar são, sem dúvida, aquelas mais cheinhas, com os grandes lábios bem carnudos, a ponto de esconder totalmente o prato principal.
102 O clitóris, em ambos os casos, independe do conjunto da obra. Devo admitir, contudo, que, algumas vezes, pensei estar diante de um hermafrodita, tão avantajados eram alguns clitóris. Pareciam pequenos pênis, pintinhos durinhos encaixados estrategicamente no alto da bu.
103 Eu imaginava que coragem era não sentir medo. Mas aprendi que não é bem assim. A coragem é mais, é vencer o medo que está ali, o tempo todo. Eu sempre tive muito medo de ficar sozinha, nunca suportei. Ficar em casa sozinha me deixava em pânico.
104 Logo, percebi que estar fisicamente acompanhada não diminui o medo de estar sozinha. A solidão era algo maior... Por mais que estivesse sempre cercada de pessoas, trabalhando no prive, atendendo clientes e convivendo com as primas, no fundo era apenas eu comigo mesma.
105 Nessa trajetória, além da vontade de parar, era preciso coragem para enfrentar a abstinência, para bater os pés no fundo do poço, tomar impulso e começar a voltar à tona. Engraçado que, hoje, tenho consciência de que o processo é bem parecido com o fim de um romance, quando você ainda está apaixonada.
106 Como já contei, tive uma ajuda inestimável nesse processo de isolamento: Gabi, minha melhor amiga, um anjo da guarda que se trancou comigo em meu apartamento nas semanas que durou esse purgatório. Mas isso não era apenas pelo que eu vivia naquele momento — vinha de longe.
107 Na adolescência, vivi com muito medo. Tanto que pensei mesmo em me matar algumas vezes — e cheguei a tentar em duas ocasiões. Na primeira vez, me vi com a arma do meu pai em punho, mas não encontrei as balas. Na segunda, cheguei a subir no parapeito da janela, pronta para voar.
108 Faltou coragem, ou, sei lá, não tive coragem de continuar. Eis que me vi com vinte anos, milhares de programas feitos, pensando o que eu poderia fazer depois de tanta loucura. Foi aí que tive coragem de admitir que precisava dar um passo atrás para poder voltar a andar para a frente.
109 Comecei a sentir que eu nasci para ser psicóloga, para ajudar as pessoas que precisam ser compreendidas. O ser humano é muito carente, por mais que tenha muitos amigos ao redor, sempre acaba guardando coisas para si, seja por vergonha ou por medo de desabafar tudo o que sente ou o que vive.
110 Eu quero muito entender mais sobre o cérebro humano, principalmente sobre algumas atitudes dos homens. Se o ser humano é um ser racional, por outro lado, muitas vezes age como se fosse irracional. Muitas vezes me pergunto: como é que alguém é capaz de matar outra pessoa a sangue frio.
111 Claro que também quero entender as minhas próprias atitudes. Por que fui cleptomaníaca e por que não soube viver em harmonia com a minha família? E quem já deitou na minha cama, pode ter a certeza de que um dia deitará no meu divã.
112 Sugeri que ele tomasse banho primeiro, para poder ficar com ela e ajudar a descontrair. Ela era de poucas palavras, mas já deixava perceber que, debaixo daquela timidez, poderia haver um vulcão adormecido. Todo mundo de banho tomado, era hora de algo acontecer.
113 Enquanto nos beijávamos, o rapaz veio se juntar a nós, em um abraço triplo. Ela beijava muito bem, com uma fome absurda, enfiando sua língua dentro da minha boca como se ali estivesse um segredo oculto. Quando nos deitamos, ela permaneceu imóvel, me deixando comandar tudo.
114 Desci com a língua em busca da bu... dela, percorri o caminho passando pelos seios pequenos, pela barriga, e continuei descendo. Quando cheguei no alvo, senti suas coxas me prendendo a cabeça com força, como se nunca mais conseguisse sair dali.
115 Com o coração batendo na boca, fiquei me perguntando onde é que eu estava com a cabeça quando tinha aceitado fazer isso. O que as pessoas iam pensar. Imaginava meus pais, meus amigos... Passado o susto, cheguei à conclusão de que era hora de ser transparente.
116 Sempre me perguntam se um dia vou contar minha história aos meus filhos. A resposta é sim. Sei que a repercussão de tudo o que expus é muito grande. Prefiro que eles saibam por mim, que vou dizer a eles a verdade sem nenhuma segunda intenção que não a de ser transparente.
117 Depois que me encrenquei com a história de ter chupado um garoto do Bandeirantes, a repentina fama de galinha que ganhei no colégio assustou aquelas pessoas descoladas que eu imaginava serem meus amigos. Ninguém nem olhava na minha cara.
118 Eu não tinha muito a oferecer, além de minha amizade. Hoje, sei que até ela foi pouco para tentar devolver a essa minha amiga tudo o que ela fez por mim. Ela parou de trabalhar como GP e virou uma espécie de anjo da guarda da Bruna.
119 Nada disso, porém, chega aos pés do que significa roubar uma prima. Todas sabíamos quanto custava ganhar cada centavo. Eu fui vítima de uma dessas enquanto estava caindo de bêbada numa balada. Fui tirar satisfação com a desgraçada e acabamos brigando feio, de deixar marca.
120 Claro que o fato de eu me destacar de alguma forma sempre gerou ciúme e desconforto entre as demais garotas. Eu era muito jovem, sempre me cuidei bem, tratava todos com educação e fugia ao máximo daquela imagem da puta fatal, devoradora de homens.
121 Por ter sido a garota que sempre trabalhou melhor nas casas por onde passei, eu tive a sorte de ser mimada pelas gerentes e cafetinas. Tudo bem que era na maior falsidade. Isso eu percebia, mas sabia tirar proveito da situação.
122 Eu percebia que ela gostava muito de mim, fazia tudo o que eu pedia. Passava a mão na minha cabeça e me dava algumas exclusividades. Quando o movimento na casa estava excelente e eu subia com algum cliente que tinha combinado comigo o período de uma hora, ela interfonava depois de quarenta minutos.
123 Ao mesmo tempo, eu era considerada a irmã caçula e, por sempre ser a mais nova das casas, todas confiavam em mim. Claro que tive muitos contratempos com algumas meninas que entravam na casa, e quando viam que eu trabalhava muito, viravam as costas para mim e sequer conversavam comigo.
124 Havia dias em que eu não trabalhava muito bem. Com o passar do tempo, quando eu não estava bem comigo mesma e desanimada para trabalhar, os clientes percebiam durante a apresentação. O olhar safado chama muito a atenção dos homens.
125 Mas há coisas na vida que são muito engraçadas: a Larissa sempre foi uma pessoa muito ruim, nunca nos pagou em dia. Ela era uma mulher com um pouco mais de quarenta anos, casada com um cara bem mais novo do que ela. Ele era lindo, e ela morria de ciúmes dele.
126 Após ela ter feito muitas meninas sofrer, a vida dela teve uma reviravolta imensa. Um pouco antes de sair da prostituição, fiquei sabendo que ela perdera o prive, ficara tão endividada, não sei a razão, e dera a casa para pagar as dívidas.
127 Isso foi gerando em mim um certo pânico da aproximação das pessoas. Depois do sucesso do primeiro livro, então, fica sempre difícil saber quem se aproxima de você por interesse ou por amizade. Na dúvida, a receita é simples: precaução e caldo de galinha — que não fazem mal a ninguém.
128 Quando você tem uma rotina como a que a Bruna tinha, de transar mais de seis vezes ao dia, é preciso mesmo variar o cardápio, para não deixar a peteca cair. É um pouco como teatro: os atores falam os mesmos textos todos os dias, andam para cá e para lá na mesma ordem.
129 Quando eu e o João Paulo realmente nos entendemos, e ele veio morar comigo, eu tive um certo receio de não parecer sincera quando tomava a iniciativa; temia parecer falsa. Por isso, tivemos um cuidado especial: deixamos as coisas acontecerem naturalmente.
130 Isso só acontece porque nos dispusemos realmente a ter intimidade — ao contrário de alguns clientes casados, que dava para perceber de cara que não podiam pedir algo diferente para a esposa. Isso eu chamo de falta de intimidade.
131 O mais importante é que não temos jogos de pudor, não fazemos c... doce um com o outro. Isso faz com que a cama seja uma brincadeira de prazer e de completude: somos duas pessoas que se amam e que se respeitam — nas suas vontades, nos seus desejos e no cuidado que temos um com o outro.
132 A falta de barreiras na cama pode não garantir que um dos dois se sinta atraído por outra pessoa, até porque atração é natural. Porém, quando existe uma sintonia completa, principalmente na cama, a curiosidade cai pela metade.
133 Eu conheci tantos homens e mulheres como Bruna e, mesmo assim, como Raquel não senti nenhuma necessidade de buscar em outro homem qualquer realização sexual. Não posso responder pelo João Paulo, mas tudo indica que ele sente o mesmo.
134 Se somos mais liberais do que outros casais? Não sei responder. Só sei que tudo o que fazemos na cama é bom, conhecemos as reações um do outro e não sentimos nenhuma vergonha por fazermos o que de bom o sexo pode oferecer. Eu não vou ficar aqui contando como são nossas transas.
135 Passamos por um tempo feliz, no qual minha profissão não interferia em nada. Às vezes, sentia que ele não estava muito a fim de sair e ficávamos em casa — transando. Mas isso não me incomodava. Ele era gentil, eu sentia que ele realmente gostava de mim.
136 No entanto, ele passou a ter reações estranhas, que não eram apenas de ciúmes por eu transar profissionalmente. Bad trip total. Por mais que ele dissesse que estava firme, que seguraria a barra da minha profissão, infelizmente não foi verdade.
137 Eu não me dei por vencida. Sempre batia uma certa insegurança, o medo de a juventude ir embora naquele trabalho e eu virar uma daquelas putas sem esperança, que vão ficando para escanteio... Depois que esse namoro terminou, passei um tempo fechada para balanço.
138 Ele me disse que nunca havia saído com uma garota de programa e que também nunca havia ouvido falar de mim. Estava navegando pela internet quando cruzou com o meu blog e ficou curioso com o que leu e também com as fotos que estavam ali.
139 Para minha surpresa, engatamos uma conversa agradável e acabamos nem partindo para o segundo tempo. Quando vimos, uma hora já havia se passado e ele precisava ir embora. Senti algo diferente, mas nem prestei atenção. Tanto que achei que ele nunca mais iria voltar.
140 Depois que ele foi embora, tirei minha soneca regulamentar de alguns minutos entre um programa e outro, e a vida continuou. Após algumas semanas, veio a segunda vez. Ele me contou que tinha ficado na dúvida se me procurava ou não, se repetiria um programa comigo ou não.
141 Hoje tive uma surpresa agradável: a volta de um cliente com quem curti muito fazer programa. De cara, eu nem havia me tocado, mas, quando abri a porta, saquei que seria um bom programa. E olha que eu deixei o coitado, mais uma vez, plantado mais de uma hora à minha espera.
142 Mesmo assim, eu ainda ganhei um presente: o livro A vida é bela. Não sei dizer a razão, mas, por melhor que fosse o programa, eu me sentia estranha com ele, que insistia em se abrir comigo. Não sei se torço para ele voltar outras vezes ou não.
143 Eu me sentia vampirizada. Realmente acredito que a energia negativa dos clientes ficava comigo e a minha positiva ia embora com eles. Com ele não foi diferente. Conversamos muito, mais do que transamos. Ele viu a minha pastinha com as reportagens sobre a mesa e comentou alguma coisa.
144 Na terceira vez em que ele me procurou para fazermos um programa, o sexo já tinha um sabor bem diferente, tranqüilo, pois eu parecia realmente conhecer aquele homem de um jeito diferente. Mas eu não queria e não ia me apaixonar.
145 Não tinha nada a ver. Se por um lado ele era um homem que tinha tudo o que eu procurava, ele também tinha tudo aquilo que eu não procurava. Eu queria que o homem da minha vida não soubesse que eu fazia programa — e ele sabia. Nunca quis um homem casado — e ele era.
146 Hoje recebi um vaso de flores, mas não sei quem mandou, pois o cartão apenas agradecia minha paciência e não estava assinado. Não costumo ficar com as flores que recebo. Ou por não serem do meu agrado ou pelo remetente não ser do meu agrado.
147 Foram ao todo sete programas. No último, nem eu nem ele queríamos mais aquele contato profissional. Era hora de tomar fôlego e coragem e tocar no assunto: o que seria dali para a frente? Eu não curto fazer programa com caras que viram meus amigos.
148 No final de semana, eu fiquei doente, com dor de ouvido. Ele me telefonou no sábado para saber de mim e, no domingo, apareceu em casa para me levar remédios e a Folha de S.Paulo, que trazia de brinde um filme. Adivinha qual era.
149 A vida é bela. Foi depois disso que as coisas se precipitaram. Estávamos quase no meio do ano, nossa história se arrastava desde janeiro, e eu querendo loucamente falar com ele todos os dias. Inventava motivos apenas para poder ligar.
150 Chegou um domingo e eu não agüentei: liguei. Ele atendeu de modo muito estranho — depois fiquei sabendo que a mulher estava por perto. Fiquei péssima com essa bola fora. Mas ele mesmo já havia dito que o casamento, depois de cinco anos e meio, estava muito abalado.
151 Claro que ele chegou em casa tarde e a mulher dele quebrou o pau. Ele juntou suas coisas e saiu de casa. Eu não sabia de nada, até ele me ligar, me convidar para almoçar e contar sobre a decisão. Fomos para minha casa e assistimos juntos A vida é bela.
152 Tanto ele quanto eu estávamos muito confusos. Não é para menos. Afinal, eu precisava aprender a me relacionar com ele não mais como uma GP — e ele não mais como cliente. Tínhamos um novo período de adaptação, de descobertas: sermos nós dois.
153 Para ele não deve ter sido fácil, pois todo mundo começou a perguntar quem era o moleque que estava com a Bruna Surfistinha, a julgar por seu comportamento. Eu nunca escondi o jogo para ele: mesmo sabendo que eu queria parar de fazer programas, isso ainda ia levar um tempo.
154 Eu nunca impediria o João Paulo de ver as filhas, pois elas não têm culpa de nada que aconteceu. No início do ano, elas começaram a passar um final de semana a cada quinze dias conosco. Elas se dão muito bem comigo e eu com elas.
155 Nada disso conseguiu mudar o amor que sentimos um pelo outro. Ao contrário: as adversidades fortaleceram nosso relacionamento e nossos sentimentos. Se ele estivesse arrependido do que fez, não estaria mais comigo — ou, talvez, me tivesse apenas como uma amante.
156 No meio desse caminho, topei com uma carinhosa troca de mensagens pelo computador com um primo querido. Estamos até combinando de nos encontrar em Sorocaba para matar a saudade. Quem sabe esse não seja o fio da meada? Torço por isso.
157 Minha mãe esteve conversando bastante com a sua mãe no final do ano, e creio que na semana que vem sua mãe venha para cá. Ela NUNCA teceu nenhuma palavra contra você. Pode ter comentado superficialmente algumas coisas, mas jamais feriu sua lembrança.
158 Repito para você o voto que fiz a Deus no dia do seu batismo. Ele está de pé e é REAL em minha vida. Tudo isso que aconteceu serviu inclusive para eu repensar meus valores e ver se estava agindo corretamente com as pessoas, principalmente com as que amo.
159 Pode até ser que eles nunca mais queiram me ver, nem pintada de ouro, mas o perdão entre todos nos fará muito bem. Eu não sei o dia de amanhã, não quero morrer sem ter resolvido isso. Muito menos quero que algum deles morra; acho que daí, então, eu nunca me perdoaria.
160 Hoje minha vida está resolvida. Parei de fazer programa, não me orgulho de ter feito, mas não me arrependo. Era para ter sido assim. Estou morando com o meu namorado há quase seis meses e estamos felizes. Ele cuida bem de mim e tenho certeza de que meus pais gostariam dele.
161 Todos em casa leram seu livro. Minha mãe, meus irmãos. Minha esposa também leu. Minha mãe chorou com as histórias que você contou no livro, principalmente com o amor que ela sentiu que você tem pela tia. Raquel, aqui na minha casa todos amam você e sentem sua falta.
162 Faz tempo que não nos comunicamos. Pode ter certeza de que não foi por falta de consideração minha, mas por falta de tempo — e também de coragem. Já algumas vezes peguei o telefone com a intenção de te ligar, mas paro de discar no meio do número e desligo.
163 Eu tenho sentido muita falta de todos vocês e, claro, principalmente dos meus pais e das minhas irmãs. No domingo, que foi Dia das Mães, fui a uma floricultura e comprei algumas orquídeas para a minha mãe, pedi para entregarem com um cartãozinho.
164 Eu não sei o que faço. Falta muita coragem de entrar em contato com todos. Eu tenho muita vergonha e, ao mesmo tempo, muito medo, pois eu não sei qual será a reação deles. Meu maior medo é que desliguem na minha cara ou que nem queiram falar comigo.
165 Eu e meu namorado estamos planejando passar um final de semana aí em Sorocaba. Se puder, quero me encontrar com você, para conversarmos. Depois, se puder, também quero encontrar seus pais. Mas prefiro primeiro me encontrar com você, para que eu tenha uma emoção de cada vez.
166 Sabe, Raquel, sou um cara muito família, você sabe disso, e sinto muito sua falta. Eu sempre mantive contato com todos e, para mim, é uma tortura a distância dos que amo. Aguardo ansioso seu telefonema. Ligue a hora que desejar.
167 Sabe... Deus nos ensina que tudo o que nós abençoarmos, abençoado será. E eu te abençôo, Raquel, pois uma das atitudes mais nobres e difíceis de serem tomadas é o arrependimento; ela dispensa o perdão. Nisso, você se mostrou abundante.
168 Eu sinto que essa visita ao sítio será o primeiro de muitos passos em direção à retomada da minha vida, da minha família. Cada pequeno centímetro que me conduza nesse caminho já fará de mim uma mulher mais feliz e mais realizada.
169 Em algum momento, no meio dessa trilha, meus passos vão cruzar novamente com os do meu pai, da minha mãe, das minhas irmãs e sobrinhos. Pressa eu tenho, pois as saudades que sinto ocupam um espaço enorme onde poderia haver paz, harmonia, felicidade.
170 Quando eu e o Jorge terminamos este livro, fui surpeendida por um pedido do João Paulo. Ele desejava escrever um capítulo contando o seu lado sobre a história que envolve o nosso relacionamento e o fim do seu casamento. Seria um desabafo e um esclarecimento dos fatos.
171 Ninguém consegue sentir ou mensurar o que acontecia se não viveu a situação ou, pelo menos, tenha presenciado parte dela. Nem eu, que vivi os dois lados, sei se conseguirei explicar. Tudo o que sei é que há vários pontos que precisam ser esclarecidos.
172 O primeiro, e o que eu julgo ser o mais importante: eu não namoro com a Bruna Surfistinha, e sim com a Raquel Pacheco, a mulher que existe por trás da personagem. E anteriormente eu fui casado com Samantha Oliveira Pita, a mulher que está por trás da personagem Samantha Moraes.
173 Hoje vejo que as pessoas querem crucificar a Bruna Surfistinha como destruidora de lares, a mulher que desfez uma família, que separou o pai das filhas e outros absurdos mais. Se há uma pessoa que não tem a menor culpa nessa história toda, essa pessoa é justamente a Raquel.
174 Eu conheci a Samantha no primário. Tínhamos aproximadamente sete anos de idade e brincávamos juntos no intervalo das aulas pelos seis meses seguintes, até ela ser transferida para outra escola. Morávamos no mesmo bairro, casas próximas, e nos encontrávamos com certa freqüência.
175 Não sei por quanto tempo morou lá, acho que cerca de um ano. Mas houve um incidente que tornou incompatível sua convivência naquela casa. Ela furtou um sutiã, ou outro objeto qualquer, em uma loja e foi descoberta pela empregada da casa que contou para a sua madrasta.
176 Já morando com a avó, nos reencontramos. Estávamos há alguns anos sem nos ver e tínhamos muita conversa para colocar em dia. Nos falávamos bastante ao telefone, tínhamos amigos em comum. Enfim, houve uma reaproximação. Sou um pouco ruim com datas, mas dos fatos eu não me esqueço.
177 Nessa época eu namorava havia dois anos. Coincidentemente, minha namorada era irmã de uma de nossas amigas de turma da adolescência. Como todo relacionamento tem seus altos e baixos, estávamos brigados e assim ficamos por uns vinte dias mais ou menos.
178 Nesse período, ela me ligou e disse que o noivo estava viajando. Perguntou se eu não tinha um amigo sobrando para sairmos com ela e uma prima. E lá fomos nós para um barzinho qualquer; bebemos, conversamos e fomos embora. Na despedida, ficamos juntos pela primeira vez.
179 Ela se foi e eu fiquei com aquilo martelando na minha cabeça: minha amiga de tantos anos e ainda por cima seria minha afilhada de casamento. Achei por bem não dar continuidade àquilo, estava confuso e simplesmente deixei uma carta para ela e sumi.
180 Talvez ela não tenha tido a oportunidade de contar essas passagens de sua vida anteriormente, mas sempre é bom relembrar, pois mostra que quando ela fala sobre traição e roubar o homem de outra mulher, também tem bastante experiência no assunto.
181 Engraçado ela aparecer na TV falando que era trabalhadora. Enquanto estávamos casados ela não chegou a voar um ano na companhia em que estava e pediu demissão. Adicionando todas as demais coisas que se aventurou a fazer, não somam mais um, e ficamos casados seis anos.
182 Bom, mas se não trabalhava era porque cuidava da casa e das filhas. Pois é, também não. Adorava ficar acordada até de madrugada. A primeira brecha que aparecia para fazer uma baladinha com quem quer que fosse, estava pronta e não hesitava em ir sozinha.
183 Por que ela não conta sobre as brigas que tivemos? Até a polícia apareceu em casa para apartar a situação, das vezes que chegamos até a agressões físicas, das inúmeras ocasiões que ficou bêbada e quebrou várias coisas em casa.
184 Certo dia achei na internet um link do blog da Bruna Surfistinha. Entrei, comecei a ler os relatos, as histórias e descobri que ela estava mais perto do que eu imaginava. Fiquei curioso, mas não telefonei. Comecei a acompanhar o dia a dia dela por mais de uma semana, até que resolvi ligar.
185 Eu fui a sua casa vários fins de semana; almoçávamos juntos, assistíamos a algum filme, dávamos muitas risadas. Até mesmo muito antes do livro O doce veneno do escorpião, eu já sabia de toda sua história. Ela era uma nova amiga, que não fazia parte do meu círculo de amizades.
186 Dentre as diversas coisas que conversávamos, falávamos muito sobre o meu casamento. Contei tudo o que acontecia, que eu pensava em me separar e dar um basta em tudo aquilo; só não havia levado ao extremo ainda por conta das minhas filhas e também por comodismo.
187 Tudo foi indo desta forma até o mês de maio. Um dia, enquanto nos falávamos por telefone, percebi que a Raquel estava muito mal e que precisava esfriar a cabeça. Passei na casa dela e saímos para dar uma volta de carro e conversar.
188 Ela achou um fio de cabelo no carro. Saiu feito louca procurando de quem seria; foi ao escritório, pois nesta época tinha uma loira trabalhando conosco. Lá chegando não me encontrou, nem ela, porque coincidentemente naquele dia ela havia me dado uma carona pois eu estava sem carro.
189 Quando cheguei à noite, já foi me acusando de estar tendo um caso, de ter uma amante, o que não era verdade, pois até então a Raquel era só uma amiga. Para mim, era o que faltava. Nem quis discutir. A decisão que eu já vinha amadurecendo na minha cabeça, naquela noite se concretizou.
190 Cheguei lá e ela estava com uma amiga. Almoçamos juntos, assistimos a um filme e eu só pensava como seria a minha vida dali para a frente e, ainda, com raiva por tudo o que já havia passado anteriormente. Começamos a conversar e decidimos sair à noite, os três.
191 Antes de sair, ficamos bebendo, ouvindo música, conversando. Quando a amiga dela foi tomar banho, eu saí para a varanda do prédio e fiquei lá sozinho, pensando na vida. Então a Raquel chegou, nos abraçamos e quando eu dei por mim, estávamos nos beijando.
192 Passamos a noite toda juntos, fomos dançar e saímos de lá só quando o dia clareou. Não voltei para casa, fui dormir em um flat. Fiquei completamente perdido; se antes eu já estava confuso, aquela nova situação me deixou ainda mais.
193 Ainda estávamos morando no mesmo apartamento e ela continuava me pressionando com aquela situação. Eu permanecia ali para ficar perto das meninas e, ao mesmo tempo, não queria mais estar com ela. Não tive outra escolha a não ser pegar umas coisas e sair de casa.
194 Comecei a passar os fins de semana com a Raquel. Dormia lá de sexta a domingo e depois, na semana, voltava ao normal. Cada dia que passava eu estava mais apaixonado por ela. Eu olhava para a Raquel e não acreditava como ela havia entrado nesta vida de prostituição.
195 Pouco depois, eu liguei para ela e disse que iria buscar minhas roupas. Eu não queria nada, ela poderia ficar com tudo. No dia combinado fui lá e minhas coisas já estavam dentro das malas, ela havia arrumado tudo. Uma prima dela estava lá e me ajudou a colocar as coisas no carro.
196 Ela sabia que eu já tinha alguém, desconfiou de várias pessoas, mas nunca imaginou quem pudesse ser, aliás, nem ela e nem ninguém. Então, mudou a estratégia: quando eu ia ver as meninas, ela estava com a casa arrumada, comida feita, as crianças de banho tomado e prontas para deitar.
197 Fazia isso para mostrar que tinha mudado. Isso me revoltou ainda mais, pois se ela era capaz, por que nunca fizera isso antes? E ainda começou a querer forçar algum tipo de situação entre nós. Eu fiquei louco com isso, brigamos feio, chegamos até a nos agredir fisicamente.
198 Paralelamente, eu continuava vendo a Raquel todos os dias; estávamos apaixonados e ambos sofríamos com a situação da prostituição. Mas nunca falávamos sobre isto; eu já não lia mais o blog e ela sempre fez de tudo para que não ficassem vestígios do que havia ocorrido naquele apartamento durante o dia.
199 Alguns dias depois, enquanto conversávamos, ela me perguntou se eu moraria com ela, pois assim poderíamos passar as noites juntos durante toda a semana. Eu sabia que se fosse morar com ela seria a pedra que faltava para sepultar de vez o meu casamento.
200 Da parte dela, teria de deixar a amiga que esteve ao seu lado em todos os momentos para morar comigo. Teríamos de fazer nossas escolhas e seriam escolhas definitivas. Isso iria acontecer naturalmente dali a um tempo, nós somente antecipamos.
201 Quando eu pegava as crianças nos fins de semana, as levava para outros lugares, pois não sabia o que a Raquel sentiria ao me ver com as filhas que tive com outra mulher. No começo, eu ficava com as meninas no apartamento delas.
202 Várias pessoas me perguntam como eu consegui conviver com a situação de namorar uma garota de programa que ainda estava trabalhando. Na verdade, nem eu mesmo sei explicar. Diferentemente do que alguns chegaram até a cogitar, não era nenhum fetiche ou algo parecido.
203 Quando a Raquel começou a ficar realmente conhecida com a publicação do livro e ela passou a dar entrevistas para jornais, revistas, rádios e para a TV, nós já estávamos juntos havia algum tempo e, sempre que possível, eu a acompanhava.
204 Fui a diversos programas, conversei com vários jornalistas, mas nunca quis dar entrevista ou mesmo aparecer na mídia. Não queria pegar carona na fama dela, não queria ficar famoso e, principalmente, não queria expor nem a mim, nem a ninguém.
205 Isso teve pelo menos um lado bom; eu não precisei contar para as pessoas quem era minha namorada, todos ficaram sabendo de uma só vez. Também serviu como uma grande peneira de amizades, pois aqueles que eram amigos de verdade respeitaram minha escolha.
206 A partir daí eu vi que ela não estava nem um pouco preocupada com a exposição de sua imagem e de sua vida na mídia. Poucos dias depois, lá estava ela na TV, contando a sua versão dos fatos e querendo vender sua história como se fosse o único caso de separação que já havia ocorrido.
207 Os meses foram passando, ela já estava com seu atual namorado, enfim, tudo caminhando para ser solucionado pacificamente. Tudo parecia se resolver, mas sempre havia algum empecilho. Pouco tempo depois, descobri a razão de nada se resolver.
208 No processo de separação, que o advogado dela redigiu, consta que voltaria a usar o nome de solteira. Porém, continua usando o meu sobrenome. Quando saímos da audiência, providencialmente havia uma repórter lá fora aguardando sua saída, ela aproveitou para divulgar o lançamento do seu livro.
209 A conclusão a que chego é que eu e a Raquel fomos vítimas de preconceito — e de sensacionalismo. Afinal, o que é que o nosso relacionamento tem de diferente de tantos outros que acontecem todos os dias por aí? E uma história de amor como tantas outras.
210 Ou você nunca ouviu falar de separações de executivos que se apaixonam por suas secretárias, de advogados que se apaixonam por suas estagiárias, de professores que se apaixonam por suas alunas ou até de donos de emissoras de TV que se apaixonam por suas apresentadoras.
211 E assim, dessa maneira, fomos ao swing durante quase três meses. Conhecemos vários casais que acreditavam que éramos mesmo namorados. Várias vezes caímos em contradição quando ficávamos conversando com algum casal. Mas nenhum deles comentou nada — afinal, ninguém estava ali para conversar.
212 Na nossa terceira vez no swing, fomos abordados por um casal. Eles eram casados de verdade havia um bom tempo. Pareciam ser muito felizes, pois eram muito carinhosos um com o outro. Fora isso, os dois eram lindos. Fomos para um quartinho reservado e trocamos de casal.
213 Com ele, o clima pegou fogo... Rolou uma química enorme entre os nossos corpos. Enquanto isso, dava para perceber, o meu cliente e a esposa dele estavam ficando juntos de uma maneira forçada. Ela não gostou do meu cliente, mas continuou ali para deixar que eu satisfizesse seu marido.
214 Em determinado momento, ele segurou forte no meu cabelo, de frente para mim, me puxou em direção à boca dele e demos um beijo cinematográfico. Enquanto nos beijávamos, eu sentia a mão dele apalpando o meu corpo. Abaixei o zíper da sua calça e fui direto ao que me interessava.
215 Coloquei camisinha nele e fiquei de quatro no sofazinho da sala. Ele me pegou com jeito — e ainda deu tapinhas excitantes no meu bumbum. Fizemos sexo selvagem, com movimentos bruscos e gemidos altos. A intensidade dos tapinhas ia aumentando à medida que o nosso tesão aumentava.
216 Escutei os gemidos dele bem alto e senti as contrações do p... dentro de mim. Ele gozou. Eu não, embora tenha ficado bem excitada. Quando levantei, ele estava muito suado e o brilho do suor realçava o leve tanquinho no seu abdome.
217 Nossa, eu quase pirei. Ficamos dançando enquanto nos olhávamos discretamente. Seguimos para uma salinha e novamente o clima pegou fogo! Ainda bem que rolou mais afinidade entre o meu cliente e a parceira, do que na primeira vez.
218 Quanto ao marido dela, a performance foi diferente — bem melhor do que na primeira vez. Ele foi mais carinhoso e percebi que realmente estava com saudades de mim. Dessa vez, foi ele quem me chupou, e sentindo a língua dele na minha bu.
219 Eu quis mudar de posição, mas pela falta de espaço tínhamos poucas opções. Ou era de quatro ou cavalgando. Ele me penetrou e com uma intensidade mais leve, acariciava o meu c... Antes mesmo de eu pedir para fazer anal, ele acabou gozando.
220 Quatro dias depois, o meu telefone pessoal tocou. Era ele! Na conversa, me contou um pouco da sua vida, inclusive que a esposa estava muito enciumada comigo, pois ele nunca tinha dado tanta atenção a uma mulher no swing. Então ele me convidou para sair, apenas nós dois.
221 Mais tarde, fomos para uma salinha e ele foi direto para o ponto que combinamos no telefone. Não fizemos qualquer tipo de preliminares, ele colocou a camisinha, me pediu para ficar de quatro e, me penetrou no c... Pelo espelho na parede ficamos nos vendo.
222 Fizemos tudo invertido, primeiro gozamos para então fazermos preliminares. Como o meu cliente ainda não tinha gozado, ficamos nos acariciando enquanto os observávamos. Nos beijamos muito e, pela primeira vez, ele chupou os meus seios, de olhos fechados e do jeito que eu gosto, mordendo os biquinhos.
223 Depois ficamos cochichando e eu perguntei por que ele nunca havia chupado meus seios. Ele respondeu que os achava lindos, mas por ser silicone tinha medo de machucar. Pedi para que ele chupasse mais um pouco, pois sua língua quente me deixou realmente muito excitada.
224 Depois dessa noite nos encontramos mais uma vez e foi a nossa despedida. Conversamos pelo telefone no dia seguinte e ele comentou que a esposa não queria mais fazer troca conosco. Primeiro porque estava com ciúmes de mim e, segundo, porque ela não conseguia se satisfazer sexualmente com o meu cliente.
225 No nosso último encontro gozei três vezes: uma na boca dele e duas no meu dedo, me masturbando enquanto fazíamos anal. Foi um sexo selvagem, com tapas, sacanagens e muito prazer. Ah, se eu soubesse que era a nossa despedida, teria aproveitado mais.
226 Uma das coisas que mais me surpreendeu com o lançamento de O doce veneno do escorpião foi o número de casais que me procurou ou me escreveu para contar como a vida sexual deles havia melhorado depois da leitura do livro. Sempre gostei muito de atendei casais e acho que já ajudei muitos deles.
227 Eles eram casados havia pouco tempo e quiseram ir para um motel. Os dois eram jovens e muito atraentes. Para a minha sorte, ela gostava de mulher, então começamos a nos pegar. Nos beijamos muito, enquanto tirávamos as nossas roupas devagar.
228 Em seguida, fomos para a banheira juntos. Ficamos conversando e o clima começou a pegar fogo entre nós três. Nos beijamos e num momento ele se levantou, tirou a espuma de sabão do p... e o chupamos ao mesmo tempo. Nos revezamos, uma hora eu chupava os sacos dele enquanto ela o p.
229 Depois de um tempo, fomos para o quarto. Primeiro, ele a pegou de quatro, enquanto eu fiquei tocando o corpo dela. Então ela disse para eu deitar na sua frente, pois queria me chupar. Enquanto me chupava, fiquei com os olhos bem abertos admirando ela sendo pega de quatro.
230 Ele aproveitou que o p... ainda estava ereto, colocou uma camisinha e veio para cima de mim, num papai e mamãe. Ele já estava fungando de cansaço mas não desanimou. Mudamos de posição: fizemos frango assado, em seguida fiquei de quatro e, por último, ficamos de ladinho.
231 Eu estava de costas para ele e aproveitei para chupar mais um pouco os peitos dela. Como ele já tinha gozado, e não deu nenhuma pausa, demorou bastante para gozar pela segunda vez. As vezes ele gemia de uma maneira que dava a impressão de estar gozando, mas era apenas impressão.
232 A única posição possível para que ela me chupasse seria ficando de cócoras com a bu... na cara dela. Fiquei excitadíssima pela situação, mas não consegui gozar pois a posição era totalmente desconfortável. Ele gozou nessa posição.
233 Duas semanas depois, voltou e me escolheu de novo. Coloquei a camisinha sem falar nada e fiquei chupando. Quando ele pedia para que eu fizesse alguma coisa, fingia que não escutava. O máximo que deixei que ele fizesse foi chupar os meus seios.
234 As desculpas esfarrapadas que os homens dão às mulheres para se aventurar com alguma prostituta são as mais variadas possíveis. A maioria delas é muito engraçada. Mas, sinceramente, tem algumas que não consigo entender como as mulheres acreditam.
235 Tinha um cliente que aparecia freqüentemente no prive. Cada vez ele ficava com uma garota diferente. Após a apresentação das meninas, todas torciam para ser a escolhida. Adorávamos ficar com ele! Não por ele ser bonito ou um cliente agradável.
236 Ele nunca tirava a roupa. Apenas abaixava a calça e a cueca. Pedia para a menina se despir rapidinho e ficar de quatro na beirada da cama. Em pouco tempo ele gozava, arrancava a camisinha e a entregava na mão da garota. Ele se arrumava, pagava o cachê, pegava um saco com pão do chão e ia embora.
237 Todas as casas prives fazem anúncios das garotas nos jornais. No prive da alameda Franca não era diferente. Eles colocavam os anúncios e os dois telefones da casa tocavam o tempo todo. Quem atendia eram as próprias garotas e nos revezávamos neste trabalho.
238 Levei o papo adiante tentando tirar as minhas dúvidas. Dessa vez não consegui, pois ainda não tínhamos intimidade. Ele perguntou se fosse me encontrar, se eu o faria de escravo. Eu respondi que sim e comecei a falar tudo o que faria com ele.
239 Ele começou a ligar todos os dias. Quando eu atendia, ficava conversando com ele e fantasiando as cenas que falávamos. Quando outra garota atendia, não tinha a mesma paciência e simplesmente desligava o telefone na cara dele. Combinamos um horário para ele ligar.
240 Perguntei várias vezes o por que de ele gostar daquilo, mas nem ele sabia me responder. Com o tempo, foi perdendo a graça e acabei ficando sem paciência. Outras meninas começaram a conversar com ele e o que mais gostavam era que latisse.
241 A gerente se aproximou e o mandou embora, já que ele estava atrapalhando o nosso trabalho. O circo, para nós, acabou. E ele nunca mais apareceu ou sequer nos telefonou. Deve ter começado a ligar para algum outro prostíbulo. Nos abandonou e foi procurar outras donas.
242 Entramos primeiro num quarto onde é permitida apenas a entrada de casais. Ninguém fica nu. As pessoas apenas levantam ou abaixam um pouco as roupas. Dava para ouvir gemidos de todos os jeitos, alguns excitantes outros falsos. O ambiente era muito escuro.
243 Só é possível identificar quem é homem e quem é mulher, mas era impossível saber como era exatamente a aparência física de cada um. A única opção era tocar os corpos para termos uma noção de como era o físico e se nos agradava ou não.
244 Mal entramos e eu já comecei a sentir alguém me tocando por baixo do vestido. Essa mão, até que carinhosa, estava procurando o meu clitóris. Ficou alguns minutos me acariciando por cima da calcinha. A mão era delicada, com toques suaves.
245 Me fazer gozar naquele momento foi uma tarefa muito fácil, pois eu estava louca de tanto tesão. Sentir a língua quente dela no meu clitóris me fez quase gozar sem precisar fazer qualquer tipo de movimento. Gozei em menos de três minutos.
246 Encapotei o p... e virei de costas numa posição totalmente desconfortável. Eu era a única a gemer naquele momento, gemidos falsos, claro, mas ninguém ali se preocupava com isso. De repente, um homem passou na minha frente e, enquanto eu transava com o cliente, ele chupou os meus seios.
247 Momentos depois, ele sumiu e deu lugar para outro. Mas este outro homem não ficou na minha frente, ficou de lado, apoiado na parede. Olhei para ele e vi que estava se masturbando enquanto me observava. Falei para ele se aproximar.
248 E como o cliente demorava horrores para gozar, fiquei ali me divertindo. Ora eu masturbava um, ora dava um jeito de chupar os seios de alguma mulher. Até o cliente gozar, eu fiz pelo menos quatro homens gozarem com a minha punheta, mas sempre da mesma maneira: eu largava momentos antes.
249 No final da nossa conversa, combinamos de nos encontrar na primeira cabine. O cara me agarrou com jeito e começou a me beijar. Eu fiquei totalmente sem reação quando ele tirou a roupa. Era um homem forte, musculoso, com tanquinho no abdome que já estava suado.
250 Primeiro transaram um pouco enquanto eu e o meu cliente os observávamos. Eram casados e já tinham intimidade. Ela era safada, ficava falando várias sacanagens. Enquanto ele a pegava de quatro e dava uns tapas no seu bumbum, comecei a tocar o corpo dela.
251 Quando eu menos esperava, o marido tirou o p... de dentro dela e me puxou. A cara que ele fez não precisou de nenhuma palavra. Eu entendi o que ele estava querendo. Peguei a camisinha e coloquei no p... que estava latejando muito.
252 Pensei que ele fosse gozar rapidamente, mas demorou quase meia hora. O p... dele não era grande e muito grosso. Aprovei e como!!! Fizemos um sexo selvagem. Ele me dava tapas no bumbum, puxava o meu cabelo e me segurava com força.
253 Não sei explicar direito, mas tive clientes que rolava a maior química entre nossos corpos! Só não podíamos conversar de jeito nenhum. Era bem assim: química mil. Afinidade zero. Com esses clientes, o jeito era fazer sexo e abrir a boca apenas para gemer.
254 As mãos grandes e pesadas me pegavam de jeito. Apertavam fortemente o meu corpo com o dele. O p... dele parecia ser de ouro, me fazia sentir nas nuvens quando era penetrada. Quando ele ia me visitar no prive, eu me sentia ganhando dinheiro fácil.
255 Eu nunca soube nada da vida dele, nem quem era ou o que fazia. Fiquei sabendo que era casado no dia em que me deu o número para contato. Nem o sobrenome dele eu sabia! Para mim não importava. Os papéis se inverteram: era eu que o usava, e não ele a mim.
256 Foi só o cliente entrar no meu apartamento e eu já senti tesão por ele. Preciso confessar que, bem discretamente, eu analisava o corpo dos clientes mesmo com roupa. Muitas vezes me enganei e as roupas me iludiram. Já outras vezes, acabei acertando.
257 Ele perguntou se eu sabia fazer massagem. Com a minha resposta afirmativa, deitou de bruços. Passei um pouco de hidratante e massageei desde a coluna até os dedos dos pés. Quando finalizei, iniciei uma massagem tailandesa, esfregando o meu corpo no dele.
258 Quando ele virou de frente para mim, o p... estava duro novamente. Coloquei camisinha e dei uma boa cavalgada de frente e de costas para ele. Quando eu estava de costas, ele ficava brincando com o meu c... ameaçando penetrar um dedo.
259 O telefone tocou duas vezes, um cliente estava ligando para marcar horário para o dia seguinte, já o outro ligou apenas para pedir informação. A noite já estava terminando e eu comecei a ficar angustiada Decidi ligar para um cliente que fazia programa comigo freqüentemente.
260 Perguntei se ele topava ir ao swing comigo, algo que nunca tínhamos feito juntos. Ele aceitou, mas com uma condição: não poderia ficar muito tempo, no máximo duas horas, pois tinha que acordar cedo no dia seguinte. Aceitei e combinamos de ele vir me buscar.
261 Sem parar de chupar o p... do cliente, abri os olhos e logo vi dois homens, um de cada lado. Ambos estavam exibindo o p... para mim. Um era muito feio, coitadinho, não me deu nem tesão. Já o outro era rosadinho, dote médio e apetitoso.
262 De repente se aproximou um homem já com o p... duro e veio pra cima de mim. Ele não me agradou nem um pouco fisicamente e pedi para que saísse da minha frente. Fiquei durante um tempo sendo apenas observada. Alguns casais estavam abraçados me olhando.
263 O cara gozou, levantei a minha calcinha e fui me aproximando da mulher com o meu olhar fatal. Ela deu um sorriso para mim e aproveitei para chegar mais perto ainda. Cheirei o pescoço dela, muito cheirosa, reconheci até o perfume, um dos meus preferidos.
264 Ela disse que queria ir comigo e com o meu parceiro a um quarto privativo, para ficarmos só nós quatro. Mas eu não queria sair dali e, além disso, o parceiro dela não me agradou nem um pouco. Eu percebi também que eles queriam trocar, pois ela demonstrou muito interesse pelo meu cliente.
265 O outro, que escolhi para fazer vaginal, sentou no sofá e se ajeitou. Me posicionei em cima dele para ficar numa posição que desse para fazer anal com o outro. Empinei o bumbum e, peguei no p... do outro para que eu mesma o penetrasse com calma.
266 Durante os três longos anos em que me prostituí, muitos se apaixonaram por mim. Recebi muitas flores, presentes e cartas. Eu tinha clientes que me procuravam uma vez por semana. Acho até que chegaram a pensar que eu também estava apaixonada por eles.
267 Aprendi sozinha a ser prostituta. E não é apenas abrir as pernas e gemer falsamente. Eu escutava os desabafos dos meus clientes, gostava de conversar com eles, de saber o porquê procuravam uma garota de programa. Aprendi muito com eles.
268 Não sinto falta dessa época e não voltaria a me prostituir. Foi uma fase pela qual eu tive que passar. Passei e agora é passado. Mas não me arrependo, porque foi uma fase muito divertida, ri muito. Também chorei. Mas sempre com a cabeça erguida e sonhando com o meu futuro.
269 O que se faz necessário é uma urgente providência da policia e do juizado de menores no sentido da extinção desse bando e para que recolham esses precoces criminosos, que já não deixam a cidade dormir em paz o seu sono tão merecido, aos Institutos de reforma de crianças ou às prisões.
270 Passemos agora a relatar o assalto de ontem, do qual foi vítima um honrado comerciante da nossa praça, que teve sua residência furtada em mais de um conto de réis e um seu empregado ferido pelo desalmado chefe dessa malta de jovens bandidos.
271 No Corredor da Vitória, coração do mais chique bairro da cidade, se eleva a bela vivenda do Comendador José Ferreira, dos mais abastados e acreditados negociantes desta praça, com loja de fazendas na rua Portugal. É um gosto ver o palacete do comendador, cercado de jardins, na sua arquitetura colonial.
272 Os relógios badalavam as três horas da tarde e a cidade abafava de calor quando o jardineiro notou que algumas crianças vestidas de molambos rondavam o jardim da residência do comendador. O jardineiro tratou de afastar da frente da casa aqueles incômodos visitantes.
273 Ficamos então a pensar neste outro delicado problema para a infância que é o cinema, que tanta idéia errada infunde às crianças acerca da vida. Outro problema que está merecendo a atenção do doutor Juiz de Maiores. A ele volveremos.
274 Tendo lido, no vosso conceituado jornal, a carta de Maria Ricardina que apelava para mim como pessoa que podia esclarecer o que é a vida das crianças recolhidas ao reformatório de menores, sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razão.
275 Quanto à carta de uma mulherzinha do povo, não me preocupei com ela, não merecia a minha resposta. Sem dúvida é uma das multas que aqui vêm e querem impedir que o Reformatório cumpra a sua santa missão de educar os seus filhos.
276 Elas os criam na rua, na pândega, e como eles aqui são submetidos a uma vida exemplar, elas são as primeiras a reclamar, quando deviam beijar as mãos daqueles que estão fazendo dos seus filhos homens de bem. Primeiro vêm pedir lugar para os filhos.
277 Depois sentem falta deles, do produto dos furtos que eles levam para casa, e então saem a reclamar contra o Reformatório. Mas, como já disse, senhor diretor, esta carta não me preocupou. Não é uma mulherzinha do povo quem há de compreender a obra que estou realizando à frente deste estabelecimento.
278 Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua.
279 Hoje a noite é alva em frente ao trapiche. É que na sua frente se estende agora o areal do cais do porto. Por baixo da ponte não há mais rumor de ondas. A areia invadiu tudo, fez o mar recuar de muitos metros. Aos poucos, lentamente, a areia foi conquistando a frente do trapiche.
280 Não mais atracaram na sua ponte os veleiros que iam partir carregados. Não mais trabalharam ali os negros musculosos que vieram da escravatura. Não mais cantou na velha ponte uma canção um marinheiro nostálgico. A areia se estendeu muito alva em frente ao trapiche.
281 Durante anos foi povoado exclusivamente pelos ratos que ai atravessavam em corridas brincalhonas, que rolam a madeira das portas monumentais, que o habitavam como senhores exclusivos. Em certa época um cachorro vagabundo o procurou como refúgio contra o vento e contra a chuva.
282 Na primeira noite não dormiu, ocupado em despedaçar ratos que passavam na sua frente. Dormiu depois de algumas noites, ladrando à lua pela madrugada, pois grande parte do teto já ruíra e os raios da lua penetravam livremente, iluminando o assoalho de tábuas grossas.
283 Mas aquele era um cachorro sem pouso certo e cedo partiu em busca de outra pousada, o escuro de uma porta, o vão de urna ponte, o corpo quente de uma cadela. E os ratos voltaram a dominas até que os Capitães da Areia lançaram as suas vistas para o casarão abandonado.
284 Neste tempo a porta caíra para um lado e um do grupo, certo dia em que passeava na extensão dos seus domínios porque toda a zona do areal do cais, como aliás toda a cidade da Bahia, pertence aos Capitães da Areia, entrou no trapiche.
285 Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi desta época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim viviam.
286 João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tomara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem.
287 E volveu os olhos para as páginas do livro. João Grande acendeu um cigarro barato, ofereceu outro em silêncio ao Professor e ficou fumando de cócoras, como que guardando a leitura do outro. Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de gritos.
288 O Gato respondia aos sorrisos e seguia. Esperava que uma o chamasse e fizesse o amor com ele. Mas não queria por dinheiro, não só porque os níqueis que possuía não passavam de mil e quinhentos, ou como porque os Capitães da Areia não gostavam de pagar mulher.
289 E uma noite o flautista não veio. Nesta noite Dalva andara pelas ruas como uma doida, voltara tarde para casa, não recebera nenhum homem e agora estava ali, postada na janela, apesar de já ter dado as doze horas há muito tempo.
290 Aos poucos a rua foi ficando deserta. Não restaram senão o Gato na esquina e Dalva, que ainda esperava na janela. O Gato sabia que aquela era a sua noite e estava alegre. Dalva desesperava. Então o Gato começou a passear de um lado para o outro da rua até que a mulher o notou e fez um sinal.
291 Pedro Bala acordou com um ruído perto de si. Dormia de bruços e olhou por baixo dos braços. Viu que um menino se levantava e se aproximava cautelosamente do canto de Pirulito. Pedro Bala, no meio do sana em que estava, pensou, a princípio, que se tratasse de um caso de pederastia.
292 E ficou atento para expulsar o passivo do grupo, pois uma das leis do grupo era que não admitiriam pederastas passivos. Mas acordou completamente e logo recordou que era impossível, pois Pirulito não era destas coisas. Devia se tratar de furto.
293 Volta Seca entrou no trapiche quando a madrugada já ia alta. O cabelo de mulato sertanejo estava revolto. Calçava alpercatas como quando viera da caatinga. O seu rosto sombrio se projetou dentro do casarão. Passou por cima do corpo do negro João Grande.
294 O Professor buscou uma vela, acendeu, começou a ler a notícia do jornal. Lampião tinha entrado numa vila da Bahia, matara oito soldados, deflorara moças, saqueara os cofres da Prefeitura. O rosto sombrio de Volta Seca se iluminou.
295 Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o céu, mirando a rua deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o último dos bondes da linha de Brotas naquela noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que fazia, gastou três fósforos.
296 Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um frio úmido que o vento trazia das chácaras onde balouçavam mangueiras e sapotizeiros. Os três meninos esperavam que o guarda andasse para poder atravessar de um lado para o outro da rua e entrar na travessa sem calçamento.
297 Os marinheiros olharam desconfiados para o menino. Mas baixo cutucou o outro com o cotovelo e murmurou qualquer coisa ao ouvido. O Gato riu para dentro porque sabia que ele estava dizendo que seria fácil arrancar o dinheiro daquela criança.
298 Se levantaram, cumprimentaram o grupo, pagaram a cerveja que tinham bebido na outra mesa. O Gato os convidou a voltarem no outro dia. O baixo respondeu que o navio deles saía aquela noite para Caravelas. Só quando voltasse. E se foram, de braço dado, comentando a pouca sorte.
299 Foi um argumento suficiente. O garçom começou a trazer os pratos: um prato de sarapatel e depois uma feijoada. Quem pagou foi o Gato. Depois Pedro Bala propôs que fossem andando até Brotas, pois já que iam a pé tinham muito que caminhar.
300 E agora estavam ali, no Ponto das Pitangueiras, esperando que o guarda se alistasse. Escondidos no vão de um portal, não falavam. Ouviam o vôo dos morcegos que atacavam os sapotis maduros nos pés. Finalmente, o guarda andou, eles ficaram espiando até que a sua figura desapareceu na curva que a rua fazia.
301 Então atravessaram e entraram na alameda das chácaras e novamente se esconderam num portal. O homem não tardou muito. Saltou de um automóvel na esquina, pagou a corrida e veio subindo a alameda. Tudo o que se ouvia eram os seus passos e o rumor das folhas que o vento balançava nas árvores.
302 Pedro Bala estava olhando a janela com luz, se voltou: Não tem nada. Isso me cheira a coisa de amigamento. O sujeito aquele derrubava a zinha daqui e agora o empregado tem as cartas que os dois se escrevia e quer dar o alarme.
303 Fez sinal para os dois esperarem do outro lado da rua, chegou para perto do portão da casa. Logo que se encostou, um grande cão se aproximou latindo. Pedro Bala amarrou um cordel no ferrolho do portão, enquanto o cão andava de um lado para outro, latindo baixo.
304 Abriu a porta do quarto, desceu as escadas. Chegou na porta da cozinha, o homem ainda estava sentado. Então Pedro Bala reparou que ele estava sentado em cima do embrulho. Aparecia uma ponta sob a perna do homem. Pedro pensou que tudo estava perdido.
305 Como iria ele tirar o embrulho de baixo da perna do homem? Saiu da porta da cozinha, foi andando para onde estava o Grande. Só se ele e o Grande atacassem o homem. Mas aí haveria gritaria, todo mundo saberia do roubo. E o senhor que os tinha empregado não queria saber disso.
306 É velho e desbotado o carrossel de Nhozinho França. Mas tem a sua beleza. Talvez esteja nas lâmpadas, ou na música da pianola velhas valsas de perdido tempo, ou talvez nos ginetes de pau. Entre eles tem um pato que é para sentar dentro os mais pequenos.
307 Desemboca gente de todas asmas. E noite de sábado, amanhã os homens não irão para o trabalho. Podem demorar na rua essa noite. Muitos preferiram ir para os bares, a Porta do Mar está cheia, mas co que tinham filhos vieram com eles para a praça, que é mal iluminada.
308 Em compensação aí estão as luzes do carrossel que rodam. As crianças olham para elas e batem palmas. Em frente à bilheteria Volta Seca imita vozes de animais e chama o público. Leva uma cartucheira como se estivesse no sertão.
309 Nhozinho França achou que isto chamaria a atenção do povo e Volta Seca parece mesmo um cangaceiro com o chapéu de couro e a cartucheira atravessada. E imita animais até que se reúnam homens, mulheres e crianças na sua frente. Então oferece entradas, que as crianças compram.
310 Na praça, casais de namorados passeiam. Mães de família compram picolés e sorvetes, um poeta sentado perto do mar faz um poema sobre as luzes do carrossel e a alegria das crianças. O carrossel ilumina toda a praça e todos os corações.
311 Só assim deixam os velhos cavalos, que nunca se cansam da corrida. Outros cavalgam os ginetes e a corrida recomeça, as girando, todas as cores fazendo uma cor única e estranha, a pi tocando sua antiga música. Também vão casais de namorados bancos e enquanto gira o carrossel murmuram palavras de amor.
312 Naquela manhã, quando viu o povo saindo da missa, entrou a igreja displicentemente e foi furando até a sacristia. Espiava tudo, os altares, os santos, riu de um São Benedito muito preto. Na sacristia não tinha ninguém e ele viu um objeto de ouro que devia dar muito dinheiro.
313 O padre José Pedro não era considerado uma grande inteligência entre o clero. Era mesmo um dos mais humildes entre aquela legião de padre s da Bahia. Em verdade fora cinco anos operário numa fábrica de tecidos, antes de entrar para o seminário.
314 O diretor da fábrica, num dia em que o bispo a visitara, resolveu dar mostra de generosidade e disse que já que o senhor bispo se queixava da falta de vocação sacerdotal, ele estava disposto a custear os estudos de um seminarista ou de alguém que quisesse estudar para padre.
315 José Pedro, que estava no seu tear, ouvindo, se aproximou e disse que ele queria ser padre. Tanto o patrão como o bispo tiveram uma surpresa. José Pedro já não era moço e não tinha estudo algum. Mas o patrão, diante do bispo, não quis voltar atrás.
316 E José Pedro foi para o seminário. Os demais seminaristas riam dele. Nunca conseguiu ser um bom aluno. Bem comportado, isso era. Também dos mais devotos, daqueles que mais se acercavam da igreja. Não estava de acordo com muitas das coisas que aconteciam no seminário e por isso os meninos o perseguiam.
317 João Grande sabia que tudo era por causa da batina rasgada e grande para a magreza do padre. Os outros responderam viva, o padre sorriu acenando com a mão, João Grande não tirava os olhos da batina. Pensou que Pedro Bala era mesmo um chefe, sabia de tudo, sabia fazer tudo.
318 Padre José Pedro disse que sim, porque sabia que aquilo era mais um passo na sua intimidade com os Capitães da Areia. E foi um grupo pm o padre para a praça. Vários não foram, o Gato inclusive, que foi ver Dalva. Mas os que iam pareciam um bando de bons meninos que tinham do catecismo.
319 E o lorgnon da velha magra se assestou contra o grupo como arma de guerra. O padre José Pedro ficou meio sem jeito, os me olhavam com curiosidade os ossos do pescoço e do peito da velha onde um barret custosíssimo brilhava à luz do sol.
320 Pedro Bala ria cada vez mais, e o padre também riu, se bem sentisse triste pela velha, pela incompreensão da velha. Mas o carrossel girava com as crianças bem vestidas e aos poucos os olhos dos Capitães da Areia se voltaram para ele e estavam cheios de desejo de ar nos cavalos, de girar com as luzes.
321 O navio apitava nas manobras de atracação. De todos os cantos surgiam estivadores que se iam dirigindo para o grande armazém Pedro Bala os olhou com carinho. Seu pai fora um deles, morrera defesa deles. Ali iam passando homens brancos, mulatos, negros muitos negros.
322 Iam encher os porões de um navio de sacos de cacau, fardos de fumo, açúcar, todos os produtos do estado que iam para pátrias longínquas, onde outros homens como aqueles, talvez altos loiros, descarregariam o navio, deixariam vazios os seus porões, pai fora um deles.
323 Só agora o sabia. E por eles fizera discursos trepado em um caixão, brigara, recebem uma bala no dia em que a cavalaria enfrentou os grevistas. Talvez ali mesmo, onde ele se sentava, ti caldo o sangue de seu pai. Pedro Bala mirou o chão agora asfaltado.
324 Por baixo daquele asfalto devia estar o sangue que correra do corpo seu pai. Por isso, no dia em que quisesse, teria um lugar nas d entre aqueles homens, o lugar que fora de seu pai. E teria também carregar fardos... Vida dura aquela, com fardos de sessenta quilos costas.
325 Quando acabou a descida da ladeira se dirigiu para o areal, vontade de ir para o trapiche ver se dormia. Um cachorro latiu à sua passagem, pensando que ele ia lhe disputar o osso que estava roendo. No fim da rua Pedro Bala viu um vulto.
326 Parecia uma mulher andava apressada. Sacudiu seu corpo de menino como se sacode animal jovem ao ver a fêmea, e com passo rápido se aproximou mulher que agora entrava no areal. A areia chiava sob os pés e a mulher notou que era seguida.
327 Apressou seus passos, porque a negrinha se desviara da rua que cortava o areal e se internara por este, se afastando dos postes de iluminação. Mas quando ela notou que Pedro Bala estava cada vez mais próximo, se lançou para a frente quase correndo.
328 Quando já ia levando a mão para tocarem seu ombro e fazer com que ela voltasse o rosto, a negrinha começou a correr. Pedro Bala se lançou em sua perseguição e logo a alcançou. Mas ia a tal velocidade esbarrou nela e ambos rolaram na areia.
329 Pedro Bala acariciava seus seios e ela, no fundo de seu terror, começava a sentir um fio de desejo, como um fio de água que corre entre montanhas e vai engrossando aos poucos até se transformar em caudaloso rio. E isso fez com que crescesse o seu terror.
330 Se ela não resistisse contra o desejo e deixasse que ele a possuísse, estaria perdida, iria deixar uma mancha de sangue no areal, da qual ririam os estivadores na madrugada seguinte. A certeza da sua fraqueza lhe deu novo alento e novas forças.
331 Mas ele a acarinhava, uma cócega subiu pelo corpo dela. Começou a compreender que se não o satisfizesse como ele queria, sua virgindade ficaria ali. E quando ele prometeu novamente sua língua a excitava no ouvido se doer eu tiro.
332 E soluçava alto, e levantava os braços, estava como uma louca, toda sua defesa eram seus gritos, suas lágrimas, suas imprecações contra o chefe dos Capitães da Areia. Mas para Pedro a maior defesa da negrinha eram os olhos cheios de pavor, olhos de animal mais fraco que não tem forças para se defender.
333 Ela fez que sim com a cabeça. Seus olhos estavam iguais aos de um doido e naquele momento só sentia dor e pavor, vontade de fugir. Agora que as mãos dele, os lábios dele, o sexo de Pedro, não tocavam mais nas carnes dela, seu desejo desaparecera e pensava unicamente em defender sua virgindade.
334 Ela apenas o olhou e seus olhos apesar de ainda ir com ele e ainda estar apavorada estavam cheios de ódio e desprezo. Pedro baixou a cabeça, não sabia o que dizer, não tinha mais desejo nem raiva, só tristeza no seu coração. Ouviram a música de um samba que um homem cantava na rua.
335 Ela soluçou mais alto, ele foi chutando a areia. Agora se sentia mais fraco que ela, a mão da negrinha pesava na sua como se fosse chumbo. Largou a mão, ela se afastou dele. Pedro não protestou. Queria não a ter encontrado, não ter também João de Adão nem ter ido ao Gantois.
336 Fora este assunto que trouxera ali. Numa batida num candomblé que se bem não fosse o seu, porque nenhum polícia se aventurava a dar batida no candomblé de Aninha, estava sob a sua proteção, a polícia tinha carregado com Ogum, que repousava no seu altar.
337 Don'Aninha tinha usado da sua força junto a um guarda para conseguir a volta do santo fora mesmo à casa de um professor da Faculdade de Medicina, seu amigo, que vinha estudar a religião negra no seu candomblé, pedir que ele conseguisse a restituição do deus.
338 Pedro Bala sentiu uma onda dentro de si. Os pobres não tinham nada. O padre José Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde Deus seria igual para todos. Mas a razão jovem de Pedro Bala não achava justiça naquilo.
339 Levou o sobretudo para a cantina, guardou. O Professor sumiu até que o navio saiu barra afora. Mas de onde estava viu a batida dos guardas pelo areal e pelas ruas adjacentes. Foi assim que o Professor tinha conseguido aquele sobretudo, que nunca quis vender.
340 E saiu. João Grande o acompanhou até a porta. O Professor veio para junto do Gato novamente. Os menores olhavam a partida do chefe com certo receio. Tinham uma grande confiança em Pedro Bala e sem ele muitos não saberiam como se arranjar.
341 O jogo recomeçou. Chuva e raios, trovões e nuvens no céu. O frio intenso no trapiche. Gotas de água caíam sobre os meninos que jogavam. Mas o jogo agora era sem atenção, o próprio Gato se esquecia de ganhar, havia como que uma confusão em todo o trapiche.
342 João Grande e o Gato foram com ele. Nesta noite foi Pirulito que se deitou na porta do trapiche com o punhal sob a cabeça. E perto dele Volta Seca espiava a noite com sua cara sombria. E pensava em que lugar estaria nesta noite de temporal o grupo de Lampião na imensidade das caatingas.
343 Talvez que nessa noite de temporal lutassem com a polícia como ia fazer agora Pedro Bala. E Volta Seca pensou que quando Pedro Bala fosse grande como um homem seria tão corajoso como Lampião. Lampião era o dono do sertão, das caatingas sem fim.
344 Pedro Bala, enquanto subia a ladeira da Montanha, revia mentalmente seu plano. Fora arquitetado com a ajuda do Professor e era a coisa mais arriscada em que se metera até hoje. Mas Don'Aninha bem que merecia que um corresse risco por ela.
345 Pedro saiu com cara de choro. O guarda ficou espiando o menino. Pedro parou no ponto de bonde, esperou. Do primeiro carro não desceu ninguém, mas do segundo saltou um casal. Pedro se atirou em cima da mulher, o homem viu que ele queria abafar a carteira dela, segurou Pedro por um braço.
346 Pedro ficou calado. Os outros presos nem ligavam para ele, estavam muito interessados em fazer troça com um pederasta que tinha sido preso e se dizia chamar Mariazinha. A um canto Pedro Bala viu o armário. A imagem de Ogum estava ao lado, junto de uma cesta para papéis inúteis.
347 Naturalmente estavam telefonando para casa dele, pedindo que o viessem buscar para não terem que o prender de novo naquela noite. De quando em vez, quando tomava cocaína demais, dava escândalos na rua e era trazido por um guarda.
348 Até o guarda riu e explicou para os outros a história de Pedro. Mas o negro jovem foi chamado e eles ficaram silenciosos. Sabiam que o negro tinha esfaqueado um homem num breforé nesta noite. Quando o preto voltou trazia as mãos inchadas dos bolos.
349 Não conversou mais, procurou um canto, se arriou. Os outros também ficaram calados. E foram indo um por um para o despacho do comissário. Uns eram postos em liberdade, outros iam para o calabouço, outros voltavam apanhados. O temporal cessara e a madrugada chegava.
350 Que seu pai era saveirista em Mar Grande e naquele dia pela manhã viera com o saveiro e o trouxera. Mas voltara em seguida para buscar outra carga e o deixara na cidade passeando, porque o saveiro tornaria à Bahia ainda à tardinha e então ele poderia voltar com seu pai.
351 Pedro Bala olhou para o relógio: marcava cinco e meia da manhã. O guarda demorou uns minutos, o comissário não se ocupou mais de Pedro, que estava de pé ante sua secretária. Só quando o guarda voltou e disse: Tem, sim senhor.
352 Por assim dizer, Pedro Bala arrancou a pederastia entre os Capitães da Areia como um médico arranca um apêndice doente do corpo de um homem. O difícil para o padre José Pedro era conciliar as coisas. Mas ia tenteando e por vezes sorna satisfeito dos resultados.
353 A não ser quando João de Adão ria dele e dizia que só a revolução acertaria tudo aquilo. Lá em cima, na cidade alta, os homens ricos e as mulheres queriam que os Capitães da Areia fossem para as prisões para o reformatório, que era pior que as prisões.
354 Lá embaixo, nas docas, João de Adão queria acabar com os ricos, fazer tudo igual, dar escola aos meninos. O padre queria dar casa, escola, carinho e conforto aos meninos sem a revolução, sem acabar com os ricos. Mas de todos os lados era uma barreira.
355 Ficava como perdido e pedia a Deus que o inspirasse. E com certo pavor via que, quando pensava no problema, dava, sem sequer o sentir, razão ao doqueiro João de Adão. Então era possuído de temor, porque não fora assim que lhe haviam ensinado, e rezava horas seguidas para que Deus o iluminasse.
356 Lá estava o Menino, e a Virgem o oferecia a Pirulito. Um relógio deu a primeira hora da tarde. Não tardariam a voltar os outros empregados. Quantos seriam? Mesmo que fosse somente um, a loja era tão pequena que ficaria impossível levar o Menino.
357 Parece que é a Virgem que está lhe dizendo isso. Que é a Virgem a lhe dizer que se ele não levar o Menino agora não o poderá levar mais, parece que está mesmo dizendo isso. E com certeza foi ela, sim, foi ela quem com que a senhorita entrasse pela cortina que tem no fundo da loja e a deixasse sozinha.
358 Pedro Bala olhou mais uma vez a casa, se acercou um pouco do jardim, assoviando. A empregada colhia flores e os seios alvos apareciam sob o decote, pois ela estava curvada. Pedro Bala espiou. Eram seios alvos terminando em bicos vermelhos.
359 Mas a senhora não estava indecisa. Estava era se lembrando seu filho, que tinha morrido com a idade daquele e que ao morrer matara toda a sua alegria e a do marido. Este ainda tinha as suas coleções de obras de arte, mas ela tinha apenas a recordação daquele filho que a deixara tão cedo.
360 E, lentamente, muito lentamente, se dirige para onde está a mala. Puxa uma cadeira na qual senta. Abre com mãos trêmulas a maleta. Mira as calças e blusas, a roupa de marinheiro, os pequenos pijamas e camisolas com que ele dormia.
361 Ontem desapareceu da casa número... da rua..., Graça, um filho dos donos da casa, chamado Augusto. Deve ter se perdido na cidade que pouco conhecia. É coxo de uma perna, tem treze anos de idade, é muito tímido, veste roupa de casimira cinza.
362 E rebentou em soluços, que deixaram os Capitães da Areia estupefatos. Só Pedro Bala e o Professor compreendiam, e este abanava as mãos porque não podia fazer nada. Pedro Bala puxava uma conversa comprida sobre um assunto muito diferente.
363 Pedro Bala, enquanto sobe a ladeira da montanha, vai pensando que não existe nada melhor no mundo que andar assim, ao azar, nas ruas da Bahia. Algumas destas ruas são asfaltadas, mas a grande, a imensa maioria é calçada de pedras negras.
364 Moças se debruçam nas janelas dos casarões antigos e ninguém pode saber se é uma costureira que romanticamente espera casar com noivo rico ou se é uma prostituta que o mira de um balcão velhíssimo, enfeitado apenas de flores. Entram mulheres de negros véus nas igrejas.
365 O sol bate nas pedras ou no asfalto do calçamento, ilumina os telhados das casas. Na sacada de um sobradão, flores medram em pobres latas. São de diversas cores e o sol lhes dá seu diário alimento de luz. Os sinos da igreja da Conceição da Praia chamam as mulheres de véu que passam apressadas.
366 Assovia com força, bate risonhamente no ombro de Professor. E os dois riem, e logo a risada se transforma em gargalhada. No entanto, não têm mais que uns poucos níqueis no bolso, vão vestidos de farrapos, não sabem o que comerão.
367 Mas estão cheios da beleza do dia e da liberdade de andar pelas ruas da cidade. E vão rindo sem ter do que, Pedro Bala com o braço passado no ombro de Professor. De onde estão podem ver o Mercado e o cais dos saveiros e mesmo o velho trapiche onde dormem.
368 Tomou uma atitude de lutador, um braço estirado. Professor riu, Bala também riu, logo o riso se transformou em gargalhada. E só pararam de gargalhar para aderira um grupo de desocupados que se reunira em torno a um tocador de violão.
369 Se o homem não se levantasse para ir embora, ainda tocando seu violão e cantando, eles teriam se esquecido de continuar a caminhada para a cidade alta. Mas o homem foi embora levando a alegria da sua música. O grupo se dispersou, um vendedor de jornais passou apregoando os diários da manhã.
370 Professor começou a desenhar a figura magra do homem. A piteira longa, os cabelos encaracolados que apareciam sob o chapéu. O homem trazia também um livro na mão e Professor teve um desejo irresistível de fazer o desenho do homem lendo o livro.
371 Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de vacina. E a varíola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou negro cheio de chaga em cima da cama.
372 Pirulito ficou rezando em voz baixa ainda atracado com o santo. Parecia um quadro estranho. Ao fundo, Almiro soluçava e dizia que não. Pirulito rezava, os outros estavam indecisos, não sabiam o que fazer. Barandão tremia de medo, pensando que estava contagiado.
373 Volta Seca ficou diante de Almiro com o revólver na mão. Almiro soluçava, e mais alto gritava quando olhava as bolhas que se estendiam pelo seu corpo. Pirulito rezava, pedia a Deus que voltasse a ser suprema bondade, não fosse suprema justiça.
374 Pedro Bala andou até Almiro. João Grande queria vencer o medo e ir para junto de Almiro também. Mas o medo da bexiga era uma coisa enorme nele, era quase maior que sua bondade. Só Professor estava junto de Pedro Bala. Este disse a Almiro: Almiro mostrou os braços cheios de bolhas.
375 Pedro Bala ficou pensando. Ia um silêncio pelo trapiche. João Grande conseguiu vencer o medo e se aproximou. Mas ia com passo arrastados. Parecia violentar sua própria vontade para chegar até junto de Almiro. Foi quando entrou Pirulito acompanhado do padre José Pedro.
376 Havia uma lei que obrigava os cidadãos a denunciarem à Saúde Pública os casos de varíola que conhecessem, para o imediato recolhimento dos variolosos aos lazaretos. O padre José Pedro conhecia a lei, mas, mais uma vez, ficou com os Capitães da Areia contra a lei.
377 Pedro Bala foi à casa de Almiro, a mãe do menino ficou feito louca, era uma lavadeira amigada com um pequeno lavrador além da Cidade de Palha. Foram buscar Almiro e o padre o visitou e depois levou um médico. Mas acontece que o médico estava cavando um lugar na Saúde Pública e denunciou o caso de varíola.
378 O Cônego entrou. Nos seus pensamentos o padre nem vira que muitos minutos de espera tinham se passado. Não viu tampouco quando o Cônego entrou com um passo manso. Era alto e muito magro, anguloso, com a batina muito limpa, os raros cabelos que lhe restavam muito bem penteados.
379 O padre José Pedro ouviu com pavor. Era o que ele temia. Os seus superiores, aqueles que tinham inteligência para compreender os desejos de Deus, não estavam de acordo com os métodos que ele empregara junto aos Capitães da Areia.
380 O padre José Pedro ia encostado à parede. O Cônego dissera que ele não podia compreender os desígnios de Deus. Não tinha inteligência, estava falando igual a um comunista. Era aquela palavra que mais perseguia o padre. De todos os púlpitos todos os padres tinham falado contra aquela palavra.
381 Sim, padre José Pedro, Deus às vezes fala aos mais ignorantes... Aos mais ignorantes... Ele era ignorante... Mas, Deus, ouvi... São uns pobres meninos... Que sabem eles do bem e do mal? Se ninguém nunca lhes ensinou nada? Nunca u'a mão de mãe nas suas cabeças.
382 Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d'África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas.
383 Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara.
384 Fora o lazareto. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina.
385 Assim estava o morro quando Estêvão foi levado para o lazareto. Não voltou, certa tarde Margarida soube que ele morrera por lá. Nesta tarde ela já estava com febre. Mas o alastrim parecia ser dos mais mansos no corpo da lavadeira e ela escondeu de todos a notícia, conseguiu não ser metida num saco.
386 Mas Dora tinha treze para quatorze anos, os seios já haviam começado a surgir sob o vestido, parecia uma mulherzinha, muito séria, a buscar os remédios para a mãe, a tratar dela. Margarida melhorou quando já os violões recomeçavam a tocar no morro, porque a epidemia de varíola tinha se acabado.
387 A música voltou a dominar as noites do morro e Margarida, se bem ainda não estivesse completamente boa, foi ã casa de algumas de suas freguesas em busca de roupa. Voltou com a trouxa nas costas, se atirou para a fonte. Trabalhou o dia todo, sob o sol e a chuva que caiu pela tarde.
388 No outro dia não voltou ao trabalho porque recaiu do alastrime a recaída é sempre terrível. Dois dias depois descia do morro o último caixão feito pela varíola. Dora não soluçava. Corriam as lágrimas pelo seu rosto, mas enquanto o caixão descia ela pensava era em Zé Fuinha, que pedia o que comer.
389 Os vizinhos deram jantar aos órfãos nesta tarde. No outro dia pela manhã o árabe que era dono dos barracões do morro mandou derramar álcool no de Margarida para desinfetar. E logo o alugou, pois era um barracão bem situado, bem no alto da ladeira.
390 E enquanto os vizinhos discutiam o problema dos órfãos, Dora tomou o irmão pela mão e desceu para a cidade. Não se despediu de ninguém, era como uma fuga. Zé Fuinha ia sem saber para onde, arrastado pela irmã. Dora marchava tranqüila.
391 Na cidade havia de encontrar quem lhes desse de comer, quem pelo menos tomasse conta de seu irmão. Ela arranjaria um emprego de copeira numa casa. Ainda era uma menina, mas havia muitas casas que preferiam mesmo uma menina porque o ordenado era menor.
392 Sua mãe certa vez falara em a empregar de copeira na casa de uma freguesa. Dora sabia onde era e se dirigiu para lá. O morro, a música dos violões, o samba que um negro cantava ficaram para trás. Os pés descalços de Dora se queimam no asfalto ardente.
393 Zé Fuinha vai alegre, vendo a cidade para ele desconhecida, os bondes que passam repleto, as marinetes que buzinam, a multidão que corta as ruas. Dora fora com Margarida certa vez à casa desta freguesa. É na Barra, elas tinham ido num bonde bagageiro, levando a trouxa de roupa lavada.
394 Ela agradeceu. Mas estava um pouco assustada, se bem lhe escapasse muito da malícia dos olhares dele. Dona Laura chegou, os cabelos grisalhos, a filha atrás dela, espiando Dora com olhos compridos. Era sardenta, mas tinha certa graça.
395 Zé Fuinha não estava no banco. Dora levou um susto. Era capaz que o irmão tivesse saído andando pela cidade e se perdesse. E como ela o iria encontrar, ela que tão pouco conhecia a cidade? Demais um grande cansaço a invadia, um desânimo, saudade da mãe morta, vontade de chorar.
396 Ela comprou pão, comeram. A tarde toda foi uma caminhada de um lado para outro à procura de emprego. Em todas as casas diziam que não, o medo da varíola era maior que qualquer bondade. No começo da noite Zé Fuinha não se agüentava mais de cansado.
397 Dora estava triste e pensava em voltar ao morro. Ia ser uma carga para os vizinhos pobres. Não queria voltar. Do morro sua mãe tinha saído num caixão, seu pai metido num saco. Mais uma vez deixou Zé Fuinha sozinho num jardim para ir comprar o que comer numa padaria, antes que fechasse.
398 Gastou os últimos níqueis. As luzes se acenderam e ela achou a princípio muito bonito. Mas logo depois sentiu que a cidade era sua inimiga, que apenas queimara os seus pés e a cansara. Aquelas casas bonitas não a quiseram. Voltou curvada, afastando com as costas das mãos as lágrimas.
399 Os garotos que jogavam se levantaram também. Ela desembrulhou os pães, deu um a Zé Fuinha. Os garotos a olhavam. O preto estava com fome, ela bem viu. Ofereceu do pão a eles. Ficaram os quatro comendo o pão dormido era mais barato em silêncio.
400 Entraram no trapiche meio desconfiados. João Grande arriou Zé Fuinha no chão, ficou parado, esperando que o Professor e Dora entrassem. Foram todos para o canto do Professor, que acendeu a vela. Os outros espiavam para o canto com surpresa.
401 Sabiam que Professor era fraco, não agüentava pancada. Estava doidamente excitados, mas ainda temiam João Grande, que segurava o punhal. Volta Seca se via como no meio do grupo de Lampião, pronto para deflorar junto com todos uma filha de fazendeiro.
402 O gato veio gingando o corpo naquele seu caminhar característico. Andara procurando enfiar a linha na agulha uma imensidade de tempo. Dora fizera Zé Fuinha dormir, agora se preparava para ouvir Professor ler aquela história tão bonita que estava no livro de capa azul.
403 Mas Dalva não cosia suas roupas, talvez nem soubesse enfiar uma linha no fundo de uma agulha. Gostava era de se bater com ele na cama, arranhar suas costas, mas de propósito, pra o arrepiar e o excitar, para que o amor se fizesse ainda melhor.
404 E Dora, não. Não era de propósito. A mão dela unhas maltratadas e sujas, roídas a dente não queria excitar, nem arrepiar. Passava como a mão de uma mãe que remendava camisas do filho. A mãe do Gato morrera cedo. Era uma mulher frágil e bonita.
405 E era dela também aquele gesto de remendar as camisas de Gato, mesmo nas costas de Gato. A mão de Dora o toca de novo. Agora a sensação é diferente. Não é mais um arrepio de desejo. É aquela sensação de carinho bom, de segurança que lhe davam as mãos de sua mãe.
406 Foi o que fez o marinheiro James, um homenzarrão. Se atirou em cima do capitão, a revolta estalou no buque. Lá fora chovia. Chovia na história também, era a história de um temporal e de uma revolta. Um dos oficiais ficou do lado dos marinheiros.
407 Amavam o heroísmo. Volta Seca espiou Dora. Os olhos dela brilhavam, ela amava o heroísmo também. Isso agradou ao sertanejo. Depois o marinheiro James sustentou uma luta feroz. Volta Seca assoviou como um passarinho de tanto contentamento.
408 Professor olhou com seus olhos de míope. Volta Seca quase gritava, seu rosto sombrio tinha a alegria de uma descoberta. Também ele descobriu sua mãe, pensou Professor. Dora estava séria, mas sei olhar era carinhoso. Volta Seca riu, ela riu, virou logo gargalhada.
409 Olhava Dora com receio: a mulher era o pecado. Em verdade ela era apenas uma criança, uma criança abandonada como eles. Não ria como as negrinhas do areal um riso insolente de convite, um riso de dentes apertados pelo desejo. Seu rosto era sério, parecia o rosto de uma mulherzinha muito digna.
410 Mas os pequenos seios que nasciam se empinavam no vestido, o pedaço de coxa que aparecia era branco e redondo. Pirulito tinha medo. Não tanto da tentação de Dora. Ela não parecia das que tentavam, era uma criança, era muito cedo para isto.
411 Ela disse que com certeza. Ele já havia esquecido que ela podia trazer a tentação nos seios de menina, nas coxas gordas, na cabeleira loira, agora falava como a uma mulher mais velha que o ouvia com carinho. Como a uma mãe. Só então compreendeu.
412 Encontraram Pedro Bala estendido na areia. O chefe dos Capitães da Areia não entrara para o trapiche nesta noite. Ficara espiando a lua, deitado na quentura boa da areia. A chuva tinha cessado e vento que corna agora era morno.
413 Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Brandão numa casa da cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, ele então as ofereceu a Dora.
414 Também estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se não fosse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar como um menino, um dos Capitães da Areia.
415 Andava com eles pelas ruas, igual a um dos Capitães da Areia. Já não achava a cidade inimiga. Agora a amava também, aprendi a andar nos becos, nas ladeiras, a pongar nos bondes, nos automóveis em disparada. Era ágil como o mais ágil.
416 Andava sempre com Pedro Bala, João Grande e Professor. João Grande não a largava, era como uma sombra de Dora, e se babava de satisfação quando ela o chamava com sua voz amiga de meu irmão. O negro a seguia como um cachorro e se dedicara totalmente a ela.
417 Ele abanou a cabeça afirmando. Então ela chegou os lábios para junto dos de Pedro Bala, os beijou e depois fugiu. Ele saiu correndo atrás dela, mas ela se escondia, não se deixava pegar. Aos poucos foram chegando os outros. Ela de longe sorna para Pedro Bala.
418 Não havia nenhuma malícia no seu sorriso. Mas seu olhar era diferente do olhar de irmã que lançava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva ingênua e tímida. Talvez mesmo não soubessem que era amor. Apesar de não ser noite de lua, havia um romântico romance no casarão colonial.
419 Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olhe porque pensava que isto era namorar. E seu coração batia rápido quando olhava. Não sabia que isso era amor. Por fim a lua veio estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e mesmo de olhos fechados via Dora.
420 Igual a uma noiva, exatamente igual a uma noiva, pensava Pedro Bala, estendido na areia. A lua amarelava o areal, as estrelas se refletiam no mar azul da Bahia. Ela veio, deitou ao lado dele. E começaram a falar de coisas tolas.
421 Esta campanha tão meritória deu os seus primeiros frutos ontem com a prisão do chefe desta malta e de vários do grupo, inclusive uma menina. Infelizmente, devido a uma sagaz burla de Pedro Bala, o chefe, os demais conseguiram escapar de entre as mãos dos guardas.
422 Ontem, às últimas horas da tarde, cinco meninos e uma menina penetraram no palacete do doutor Alcebíades Menezes, na ladeira de São Bento. Foram porém pressentidos pelo filho do dono da casa, estudante de medicina, que deixou que eles penetrassem num quarto, onde os trancou.
423 Pondo em prática uma agilidade incomum Pedro Bala se livrou dos braços do investigador que o segurava e com um golpe de capoeira o derrubou. No entanto não fugiu.É claro que os demais guardas e investigadores se precipitaram em cima dele para impedir a sua fuga.
424 Dora declarou à nossa reportagem que era noiva de Pedro Bala e que iam se casar. É uma menina ainda ingênua, mais digna de piedade que de castigo. Fala no seu noivado com maior das ingenuidades. Não tem mais de quatorze anos, enquanto Pedro Bala anda pelos seus dezesseis.
425 O bedel Ranulfo, que o tinha ido buscar na polícia, o levou à presença do diretor. Pedro Bala sentia o corpo todo doer das pancadas do dia anterior. Mas ia satisfeito, porque nada tinha dito, porque não revelara o lugar onde os Capitães da Areia viviam.
426 Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era um pequeno quarto, por baixo da escada, onde não se podia estar em pé, porque não havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque não havia comprimento.
427 Grita, xinga nomes. Ninguém o atende, ninguém o vê, ninguém o ouve. Assim deve ser o inferno. Pirulito tem razão de ter medo do inferno. É por demais terrível. Sofrer sede e escuridão. A canção dos presos dizia que lá fora é a liberdade e o sol.
428 Vê o bedel Ranulfo na porta. Traz um caneco com água, que Pedro Bala arranca das suas mãos e bebe em grandes goles. Mas é tão pouca... Não chega para matar a sede. O bedel lhe entrega um prato de barro com uma água onde bóiam alguns caroços de feijão.
429 Ouve a chave que o tranca. Tateia na escuridão até encontrar o prato. Bebe a água escura do feijão. Nem repara que é salgadíssima. Depois come os grãos duros. Mas a sede o ataca novamente. O feijão muito salgado ativa a sede. O que é um caneco de água para aquela sede que exigia uma moringa.
430 Pedro se encolhe. Agora um vai sofrer castigo por causa dele. Quando fugir, levará aquele para os Capitães da Areia. Para o sol e liberdade. Acende o cigarro. Com muito cuidado para não perder fósforo que é o único. Esconde a brasa do cigarro sob a mão para que ninguém o possa ver pelas frestas da escada.
431 Quantas horas? Quantos dias? A escuridão é sempre a mesma, a sede é sempre igual. Já lhe trouxeram água e feijão três vezes. Aprendeu a não beber caldo de feijão, que aumenta a sede. Agora está muito mais fraco, um desânimo no corpo todo.
432 O barril onde defeca exala um cheiro horrível. Não o retiraram ainda. E sua barriga dói, sofre horrores para defecar. É como se as tripas fossem sair. As pernas não o ajudam. O que o mantém em pé é o ódio que enche seu coração.
433 É tudo quanto consegue dizer. Assim mesmo, em voz baixa. Já não tem forças para gritar, para esmurrar a porta. Agora está certo de que morrerá ali. Cada vez sofre maiores dores para defecar. Vê Dora estendida no chão, morrendo de sede, chamando por ele.
434 A cara do diretor aparece ao lado do rosto de Dora. Vem torturar sua agonia ainda mais? Quanto tempo ela leva para morrer... Pedro Bala pede que ela morra logo, logo... Será melhor. Agora o direto veio, veio para aumentar a tortura.
435 Pedro Bala está irreconhecível de tão magro. Os ossos aparecem junto à pele. O rosto, verdoso da complicação intestinal. O bedel Fausto, dono daquela voz que ele ouvira certa vez na porta da cafua, está ao seu lado. E um tipo forte, tem fama de ser tão malvado quanto o diretor.
436 Empurra a corda para baixo do colchão, volta para o canavial. Jeremias foi levado para a cafua. Os bedéis agora juntam os meninos. Ranulfo e Campos foram em perseguição de Agostinho, que pulou a cerca na confusão da briga. O bedel Fausto, com um talho no ombro, foi para a enfermaria.
437 Duas noites depois, quando o bedel Fausto já tinha se recolhido há muito ao seu quarto de tabiques e quando todos dormiam, Pedro Bala se levantou, tirou a corda de sob o colchão. Sua cama ficava junto a uma janela. Abriu. Amarrou a corda num dos armadores de rede que existiam na parede.
438 Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora. Nascera no morro, infância em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a vida aventurosa dos Capitães da Areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade.
439 Ficar em jejum, perder os recreios. Veio uma febre, ela esteve na enfermaria. Quando voltou estava macilenta. Tinha sempre febre, mas não dizia nada, porque odiava o silêncio da enfermaria, onde o sol não entrava e das as horas pareciam a hora agonizante do crepúsculo.
440 Mas a luz entrou com eles. Como Pedro Bala estava magro, pensou Dora ao se pôr ao seu lado. João Grande, Gato, Professor, estavam com ele. Professor mostrou anavalha à Irmã, que abafou um grito. A menina que estava com catapora na outra cama tremia sob os lençóis.
441 Mal a recuperaram, a febre a derrubou. Onde está a alegria dela, por que ela não corre picula com seus filhinhos menores, não vai para a aventura das ruas com seus irmãos negros, brancos e mulatos? Onde está a alegria dos olhos dela.
442 Dentro do trapiche os Capitães da Areia estão silenciosos. Dora pediu que eles fossem dormir. Se deitaram pelo chão, mas são raros os que dormem. Na paz imensa da noite pensam na febre que consome Dora. Ela beijou Zé Fuinha, mandou que ele fosse dormir.
443 Pedro deita ao seu lado. João Grande se afasta, chega para perto de Professor. Mas não conversam, ficam entregues à sua tristeza. No entanto é uma noite de paz que envolve o trapiche. E a paz da noite está também nos olhos doentes de Dora.
444 A paz da noite envolve os esposos. O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima. Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor. Mas nos corações dos dois meninos não há mais nenhum medo. Somente paz, a paz da noite da Bahia.
445 Em torno é a paz da noite. Nos olhos mortos de Dora, olhos de mãe, de irmã, de noiva e de esposa, há uma grande paz. Alguns meninos choram. Volta Seca e João Grande vão levar o corpo. Mas, parado ante ele, está Pedro Bala, imóvel.
446 Contam no cais da Bahia que quando morre um homem valente vira estrela no céu. Assim foi com Zumbi, com Lucas da Feira, com Besouro, todos os negros valentes. Mas nunca se viu um caso de uma mulher, por mais valente que fosse, virar estrela depois de morta.
447 Que importa tampouco que os astrônomos afirmem que foi um cometa que passou sobre a Bahia naquela noite? O que Pedro Bala viu foi Dora feita estrela, indo para o céu. Fora mais valente que todas mulheres, mais valente que Rosa Palmeirão, que Maria Cabaçu.
448 Não havia passado muito tempo sobre a morte de Dora, a imagem da sua presença tão rápida e no entanto tão marcante, da sua morte também, ainda enchia de visões as noites do trapiche. Alguns, quando entravam, todavia, olhavam para o canto onde ela costumava sentar ao lado do Professor e de João Grande.
449 Um dia Professor entrou no trapiche e não acendeu sua vela, não abriu um livro de histórias, não conversou. Para ele toda aquela vida tinha acabado desde que Dora fora levada pela febre. Quando ela viera, enchera o trapiche com sua presença.
450 Para Professor tudo tinha uma nova significação. O trapiche ficara como a moldura de um quadro: ora os cabelos loiros caindo sobre Gato, que via sua mãe, ora os lábios que beijavam Zé Fuinha para ele dormir. Ou a boca que cantava cantigas de ninar.
451 Ou a entrada no trapiche, os cabelos voando, o rosto todo rindo, de volta da aventura do dia nas ruas da cidade. Ou os olhos cheios de amor, a febre queimando seu rosto, as mãos chamando o amado para a posse primeira e última.
452 Professor também não entendeu. Tampouco Pedro Bala sabia explicar. Mas tinha confiança no Professor, nos quadros que ele faria na marca do ódio que ele levava no coração, na marca de amor à justiça e à liberdade que ele levava dentro de si.
453 O viva apertou o coração do menino. Olhou para o trapiche. Não era como um quadro sem moldura. Era como a moldura de inúmeros quadros. Como quadros de uma fita de cinema. Vida s de luta e de coragem. De miséria também. Uma vontade de ficar.
454 Professor ainda de longe vê o boné de Pedro, que se sacode no cais. E no meio daqueles homens desconhecidos, oficiais fardados, comerciantes e senhoritas, fica tímido, não sabe que fazer, sente que toda a sua coragem ficou com os Capitães da Areia.
455 Passou o inverno, passou o verão, veio outro inverno, e este cheio de longas chuvas, o vento não deixou de correr uma só noite areal. Agora Pirulito vendia jornais, fazia trabalhos de engraxate, carregava bagagens dos viajantes.
456 Conseguira deixar de furtar para viver. Pedro Bata consentira que ele continuasse no trapiche, apesar que ele não levava a mesma vida que os outros. Pedro Bala não entende o que vai dentro de Pirulito. Sabe que ele quer ser padre, que quer fugir daquela vida.
457 Mas acha que aquilo não resolverá nada, não endireitará nada na vida de todos eles. O padre José Pedro fazia tudo para mudar a vida deles. Mas era um só, os outros não achavam que ele fizesse bem. Que tinha adiantado? Só todos unidos, como dizia João de Adão.
458 Mas Deus chamava Pirulito. Nas noites do trapiche o menino ouvia o chamado de Deus. Era uma voz poderosa dentro dele. Uma voz poderosa como a voz do mar, como a voz do vento que corre em torno ao casarão. Uma voz que não fala aos seus ouvidos, que fala seu coração.
459 Uma voz que o chama, que o alegra e o amedronta mesmo tempo. Uma voz que exige tudo dele para lhe dar a felicidade a servir. Deus o chama. E o chamado de Deus dentro de Pirulito é poderoso como a voz do vento, como a voz potente do mar.
460 Pirulito quer viver para Deus, inteiramente para Deus, uma vida de recolhimento e de penitência, uma vida que o limpe dos pecados, que o torne digno da contemplação de Deus. Deus o chama e Pirulito pensa na sua salvação. Será um penitente, não olhará mais o espetáculo do mundo.
461 Não quer ver nada do que se passa no mundo para ter os olhos suficientemente limpos para poderem ver a face de Deus. Porque para aqueles que não têm os olhos completamente limpos de todo pecado, a face de Deus é terrível como o mar enfurecido.
462 Pirulito está marcado por Deus. Mas está marcado também pela vida dos Capitães da Areia. Desiste da sua liberdade, de ver e ouvir o espetáculo do mundo, da marca de aventura dos Capitães da Areia, para ouvir o chamado de Deus.
463 Porque a voz de Deus que fala no seu coração é tão poderosa que não tem comparação. Rezará pelos Capitães da Areia na sua cela de penitente. Porque tem que ouvir e seguir a voz que o chama. É uma voz que transfigura seu rosto na noite invernosa do trapiche.
464 Padre José Pedro foi chamado novamente ao arcebispado. Desta vez o Cônego está acompanhado do superior dos Capuchinhos. Padre José Pedro treme, pensando que novamente vão lhe ralhar, vão falar dos seus pecados. Fez uma coisa contra as leis para ajudar os Capitães da Areia.
465 Teme ter fracassado, porque em quase nada conseguira melhorara vida deles. Mas em certos momentos cruéis levara um pouco de conforto àqueles pequenos corações. E tinha Pirulito... Era uma conquista para Deus. Se não fizera tudo, se não transformara como queria aquelas vidas, não tinha perdido tudo também.
466 Algo havia conseguido para Deus. Se alegrava, apesar da tristeza do pouco que havia conseguido para os Capitães da Areia. Assim mesmo, em certos momentos fora como a família que lhes faltava. Certas horas tinha sido pai e mãe.
467 Agora os chefes estavam já rapazes, quase homens. Professor já tinha ido embora, outros não tardariam a ir. Mesmo que fossem ser ladrões, levar uma vida de pecado, em certos momentos o padre conseguira minorar o espetáculo de miséria das suas vidas com um pouco de conforto e de carinho.
468 A paróquia nunca tivera cura porque o arcebispo nunca encontrara um padre que se dispusesse a ir para o meio dos cangaceiros, numa perdida vila do alto sertão. Mas o nome do lugarejo alegrou o coração do padre José Pedro. Ia para o meio dos cangaceiros.
469 Se despede. Entra para o vagão. O trem apita, é como uma despedida. Da janela, o padre vê os meninos que agitam mãos e bonés, velhos chapéus, trapos que servem de lenço. Uma velha que vai defronte dele, doidinha para puxar conversa, se espanta do padre chorando.
470 Gato contou que a solteirona era cheia do dinheiro. Era a última de uma família rica, andava pelos quarenta e cinco anos, feia e nervosa. Corna a notícia de que tinha uma sala cheia de coisas de ouro, de brilhantes e jóias acumuladas pela família através de gerações.
471 A solteirona não tirava os olhos dele. Um menino... Não era a bondade que falava dentro dela. Era a voz do sexo que dava seus últimos latidos. Dentro em pouco seu sexo ficaria inútil, os médicos diziam que então o seu nervoso cessaria.
472 Os navios chegam a Ilhéus carregados de mulheres. Mulheres que vêm da Bahia, de Aracaju, o mulherio todo de Recife, mesmo do Rio de Janeiro. Os gordos coronéis olham das pontes a chegada das mulheres. Morenas, loiras e mulatas, vêm em busca deles.
473 Pedro sorriu. Era outro que ia. Não seriam meninos toda vida... Bem sabia que eles nunca tinham parecido crianças. Desde pequenos na arriscada vida da rua, os Capitães da Areia eram como homens eram iguais a homens. Toda a diferença estava no tamanho.
474 No mais eram iguais: amavam e derrubavam negras no areal desde cedo furtavam para viver como os ladrões da cidade. Quando eram preso apanhavam surras como os homens. Por vezes assaltavam de armas na mão como os mais temidos bandidos da Bahia.
475 Não tinham também conversas de meninos, conversavam como homens. Sentiam mesmo como homens. Quando outras crianças só se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam envolvidos em acontecimentos que só os homens sabiam resolver.
476 Sempre tinham sido como homens, na sua vida de miséria e de aventura, nunca tinham sido perfeitamente crianças. Porque o que faz a criança é o ambiente de casa, pai, mãe, nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e mãe na vida da rua.
477 E tiveram sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsáveis por si. Tinham sido sempre iguais a homens. Agora os mais velhos, os que eram desde há anos os chefes do grupo, estavam rapazolas, começavam a ir para seus destinos.
478 Do cais Pedro Bala dá adeus ao Gato. Vestido com suas roupas esfarrapadas, agitando o boné, se sente muito longe do Gato, que ao lado de Dalva parece um homem feito com sua roupa bem talhada Pedro sente uma aflição, uma vontade de fugir, de ir para qualquer parte num navio ou na rabada de um trem.
479 Uma madrugada o trem de Sergipe apitou na estação da Calçada. Ninguém tinha vindo trazer Volta Seca à estação porque ele ia para voltar, ia passar uns tempos entre os Índios Maloqueiros, esquecer a polícia baiana, que o tinha marcado.
480 Volta Seca se meteu no vagão de carga que estava aberto, se escondeu entre uns fardos. Aos poucos o trem abandona a estação. Depois é a estrada do sertão, Índia Nordestina. Nas casas de barro aparecem mulheres e meninas. Os homens seminus lavram a terra.
481 Antigamente ele e sua mãe tinham um pedaço de terra. Ela era comadre de Lampião, os coronéis respeitavam sua terra. Mas quando Lampião se internou pelo sertão de Pernambuco os coronéis ficaram com a terra da mãe de Volta Seca.
482 Ela desceu para a cidade para pedir justiça. Morreu no caminho, Volta Seca continuou a caminhada com seu rosto sombrio. Muita coisa aprendeu na cidade, entre os Capitães da Areia. Aprendeu que não era só no sertão que os homens ricos eram ruins para com os pobres.
483 Aprendeu que as crianças pobres são desgraçadas em toda parte, que os ricos perseguem e mandam em toda parte. Sorriu por vezes, mas nunca deixou de odiar. Na figura de José Pedro descobriu o motivo por que Lampião respeitava os padre s.
484 Cheiro bom de comidas de milho e mandioca. Homens magros que lavram a terra para ganhar mil e quinhentos dos donos da terra. Só caatinga é que é de todos, porque Lampião libertou a caatinga expulsou os homens ricos da caatinga, fez da caatinga a terra dos cangaceiros que lutam contra os fazendeiros.
485 O herói Lampião, herói de todo o sertão de cinco estados. Dizem que ele é um criminoso, um cangaceiro sem coração, assassino, desonrador, ladrão. Mas para Volta Seca, para os homens, as mulheres e as crianças do sertão é um novo Zumbi dos Palmares, ele é um libertador, um capitão de um novo exército.
486 Porque a liberdade é como o sol, o bem maior do mundo. E Lampião luta, mata, deflora e furta pela liberdade. Pela liberdade e pela justiça para os homens explorados do sertão imenso de cinco estados: Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia.
487 O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar, cortando as terras do sertão. Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar beleza dentro desta miséria.
488 Passam violeiros, improvisadores de poesia. Passam vaqueiros que tangem o gado, homens plantam mandioca e milho. Nas estações os coronéis descem para estirar as pernas. Levam grandes revólveres. Os violeiros cegos cantam pedindo uma esmola.
489 Um negro de camisa e rosário atravessa essa a estação dizendo estranhas coisas em língua desconhecida. Foi escravo, hoje é um doido na estação. Todos temem, temem suas pragas. Porque ele sofreu muito, o chicote de feitor rasgou suas costas.
490 O trem pára no meio da caatinga. Volta Seca pula fora do vagão. Os cangaceiros apontam os fuzis, o caminhão que os trouxe está parado no outro lado da estrada, os fios do telégrafo cortados. Na caatinga agreste não se vê ninguém.
491 Entra para a coleta. Desmaios e gritos lá dentro, o soar de um disparo. Depois o grupo volta para a estrada. Traz dois soldados de polícia que viajavam no trem. Lampião divide dinheiro com os cangaceiros. Volta Seca também recebe.
492 Fora demasiada audácia atacar aquela casa da rua rui Barbosa. Perto dali, na praça do Palácio, andavam muitos guardas, investigadores, soldados. Mas eles tinham sede de aventura, estavam cada vez maiores, cada vez mais atrevidos.
493 O Jornal da Tarde publica um telegrama do rio dando conta do sucesso da exposição de um jovem pintor até então desconhecido. Dias depois transcreve uma crítica de arte publicada também num jornal do Rio de Janeiro. Porque o pintor é baiano, e o Jornal da Tarde é muito cioso das glórias baianas.
494 Um trecho da crítica de arte, após falar das qualidades e defeitos do novo pintor social, de usar e abusar de expressões como clima, luz, cor, ângulos, força e outras mais, diz:... um detalhe notaram todos que foram estranha exposição de cenas e retratos de meninos pobres.
495 É que todos os sentimentos bons estão sempre representados na figura de uma menina magra de cabelos loiros e faces febris. E que todos os sentimentos maus estão representados por um homem de sobretudo negro e um ar de viajante.
496 A reportagem era extensa. Contava como as vilas saqueadas há algum tempo vinham notando entre o bando de Lampião uma criança de uns dezesseis anos, que levava o nome de Volta Seca. Apesar da sua idade, o jovem cangaceiro se fizera temido em todo o sertão como um dos mais cruéis do grupo.
497 Aconteceu que o grupo tinha pegado na estrada um velho sargento de polícia. E Lampião o entregara a Volta Seca para que o despachasse. Volta Seca o despachara devagarinho, à ponta de punhal, cortando os pedacinhos com visível satisfação.
498 Fora tanta a crueldade, que Machadão, horrorizado, levantou o fuzil para acabar com Volta Seca. Mas antes que disparasse, Lampião, que tinha um grande orgulho de Volta Seca, atirou em Machadão. Volta Seca continuara sua tarefa.
499 Meses depois a edição se esgotou novamente porque trazia a notícia da prisão de Volta Seca, enquanto dormia, executada pela coluna volante que percorria o sertão dando caça a Lampião. Anunciava que o cangaceiro chegaria no outro dia à Bahia.
500 Há um movimento novo na cidade. Pedro Bala sai do trapiche com João Grande e Barandão. O cais está deserto, parece que todos o abandonaram. Somente soldados de policia guardam os grandes armazéns. Não há descarga de navios neste dia.
501 Vão para a porta do sindicato. Entram homens negros, mulatos, espanhóis e portugueses. Vêem quando João de Adão e os outros estivadores saem entre vivas dos operários das linhas de bonde. Eles vivam também. João Grande e Barandão porque gostam do doqueiro João de Adão.
502 A cidade dormiu cedo. A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente. Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi. No trapiche as crianças já dormem. Até o negro João Grande ronca estirado na porta, o punhal ao alcance da mão.
503 Somente Pedro Bala vela, estirado na areia, olhando a lua, ouvindo o negro que canta as saudades da sua mulata que partiu. O vento traz trechos soltos da canção e ela faz com que Pedro Bala procure Dora no meio das estrelas do céu.
504 Aquilo, aquela confiança, impressionara Alberto e alguns outros. Por fim a idéia venceu, não perderiam nada em tentar. Agora está satisfeito de ter vindo. E na sua cabeça já fazia planos para aproveitar na luta os Capitães da Areia.
505 Na madrugada que nasce, as estrelas começam a desaparecer do céu. Mas Pedro Bala parece ver numa estrela que corre a estrela de Dora que o alegra. Companheira... Também ela tinha sido uma companheira boa. A palavra brinca na sua boca, é a palavra mais bonita que ele já viu.
506 No pé da ladeira da Montanha se dividem em três grupos. João Grande chefia um, Barandão vai com outro, o maior vai com Pedro Bala. Vão para uma festa. A primeira festa verdadeira que têm aquelas crianças. Ainda assim é uma festa de homens.
507 Conversam e riem. Gato pergunta notícia dos outros. Diz que no dia seguinte embarcará para Aracaju com a morena, pois açúcar está dando dinheiro. Pedro Bala o vê ir embora todo elegante. Pensa que se ele tivesse demorado mais algum tempo no trapiche, talvez não fosse um ladrão.
508 Pedro Bata foi aceito na organização no mesmo dia em que João Grande embarcou como marinheiro num navio cargueiro do Lóide. No cais dá adeus ao negro, que parte para a sua primeira viagem. Mas não é um adeus como aqueles que dera aos outros que partiram antes.
509 Ordens vieram para a organização dos mais altos dirigentes. Que Alberto ficasse com os Capitães da Areia e Pedro Bala fosse organizar os índios Maloqueiros de Aracaju em brigada de choque também. E que depois continuasse a mudar o destino das outras crianças abandonadas do país.
510 No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais únicas bocas que ainda falavam clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
511 E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que fora era o terror, qualquer daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia.

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